Pastores e presbíteros
Categoria: Artigo
Data: 22/09/2026
Pastores e presbíteros: companheiros no cuidado do rebanho
Valdeci Santos

O relacionamento entre pastor e presbíteros é uma das relações mais importantes para a saúde de uma igreja. Quando existe confiança, respeito, comunhão e clareza acerca das responsabilidades de cada um, toda a congregação é beneficiada. Quando, porém, essa relação é marcada por desconfiança, competição, controle etc., o desgaste dificilmente permanece restrito às reuniões do Conselho. Mais cedo ou mais tarde, alcança toda a igreja.

Esse problema não é novo. A história da igreja mostra que cristãos de outras gerações também refletiram sobre a maneira como pastores e demais oficiais devem trabalhar juntos. Um desses autores foi John Owen (1616–1683), importante teólogo reformado inglês. Em sua obra The True Nature of a Gospel Church and Its Government (A verdadeira natureza de uma igreja do evangelho e seu governo), ele apresenta princípios que ainda podem nos ajudar nesse relacionamento.

De quem é a igreja?

Embora essa pareça uma afirmação óbvia, suas implicações são profundas. O pastor não é dono da igreja e os presbíteros também não são. A autoridade exercida por ambos é recebida de Cristo, limitada por sua Palavra e destinada à edificação do seu povo.

Um dos primeiros problemas na liderança da igreja surge quando categorias empresariais substituem categorias eclesiológicas. Logo, em momentos de tensão, a pergunta certa não é “quem manda aqui?”, mas: “Como devemos, juntos, cumprir aquilo que Cristo espera de nós?”. Quando essa perspectiva se perde, dois erros aparecem com facilidade. Em um extremo, o pastor centraliza o ministério e os presbíteros tornam-se quase auxiliares de seus projetos. No outro, o Conselho funciona como uma diretoria empresarial e passa a tratar o pastor como funcionário. Nenhum dos modelos faz justiça à natureza espiritual da igreja.

Governar juntos não significa fazer as mesmas coisas

Owen distingue o trabalho daqueles que se dedicam especialmente à Palavra e à doutrina do trabalho dos presbíteros que se dedicam particularmente ao governo (1Tm 5.17). Contudo, ambos participam do mesmo governo da igreja. Isso significa que pastor e presbíteros possuem funções distintas, mas responsabilidade compartilhada.

O pastor possui uma responsabilidade particular pela pregação, ensino, oração e cuidado espiritual. Os presbíteros, por sua vez, não foram chamados apenas para comparecer às reuniões, votar assuntos administrativos ou supervisionar o trabalho do pastor. Eles também são responsáveis pelo rebanho.

Aqui talvez esteja uma das causas de muitos desgastes. Algumas vezes, o pastor sente que carrega sozinho o peso espiritual da igreja. Em outras, os presbíteros sentem que sua participação se tornou apenas formal. A solução não está em aumentar o poder de um lado e diminuir o do outro, mas em recuperar a corresponsabilidade bíblica de ambos.

Quem pastoreia o rebanho?

Imagine uma família em crise, um membro afastado, um jovem enfrentando dificuldades espirituais ou um conflito entre irmãos. É fácil perguntar ao pastor: “O que o senhor está fazendo a respeito disso?”, e a pergunta pode ser legítima. Mas Owen sugere acrescentar outra ao conselho: “O que nós, como presbíteros, estamos fazendo a respeito disso?”

O cuidado do rebanho não pertence exclusivamente ao pastor. Os presbíteros também devem conhecer as pessoas, acompanhá-las, encorajá-las, adverti-las quando necessário e ajudá-las em suas necessidades espirituais. Quando isso acontece, o Conselho deixa de ser apenas um grupo que avalia o que o pastor fez e torna-se também uma equipe em prol do cuidado da igreja de Cristo.

O pastor presta contas aos seus irmãos presbíteros, mas esses mesmos presbíteros também prestam contas a Cristo pelo cuidado das ovelhas. A exortação apostólica a todos é: “Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue” (At 20.28).

Presbíteros também cuidam do pastor

Owen chama atenção para a responsabilidade do ministro da Palavra. O pastor deve dedicar-se à oração, ao estudo, à pregação, à doutrina e ao cuidado das consciências (aconselhamento). Mas para que ele possa fazer tudo isso, Deus instituiu os presbíteros, que também devem impedir que o peso administrativo seja um empecilho ao cuidado do pastor com o rebanho.

Uma liderança deveria, portanto, perguntar: nossa maneira de organizar a igreja ajuda o pastor a cumprir sua vocação ou dificulta que ele a cumpra? A verdade é que podemos dizer que valorizamos a pregação e, ao mesmo tempo, encher a agenda pastoral de reuniões, questões administrativas e pequenos problemas que poderiam ser resolvidos por outros. Presbíteros que valorizam o ministério da Palavra não apenas desejam bons sermões; ajudam a criar condições para que o pastor possa estudar, orar e se preparar para isso.

Mas existe algo ainda mais pessoal: Quem cuida do pastor? Pastores também se cansam, enfrentam tentações, críticas, frustrações e conflitos. Eles também possuem famílias que necessitam deles. O pastor é pastor, mas também continua sendo ovelha. Por isso, os presbíteros não deveriam apenas indagar sobre o trabalho dele, mas também sobre sua alma, sua família, sobre como ajudá-lo a carregar algum fardo ou dificuldade. É verdade que o pastor precisa de presbíteros que o supervisionem, mas também precisa de irmãos que caminhem com ele.

No mínimo, compareça

Há expectativas elevadas sobre os que são chamados para exercer o presbiterato (1Tm 3 e Tt 1). Espera-se que eles revelem maturidade espiritual, conhecimento das Escrituras, sabedoria, capacidade para aconselhar, ensinar e governar. Entretanto, antes de todas essas coisas, existe uma responsabilidade muito mais elementar: estar presente nas programações.

Pode parecer pouco dizer a um presbítero: “No mínimo, compareça”! Na verdade, essa afirmação contém um princípio importante. Não se pode cuidar de uma igreja da qual se está habitualmente ausente. Não se pode conhecer um rebanho com o qual pouco se convive. Dificilmente se pode exercer adequadamente autoridade sobre atividades das quais sistematicamente não se participa.

Owen oferece uma contribuição importante para essa reflexão. Em seu livro, ele apresenta o presbiterato não como posição honorífica, mas como vocação que exige presença, diligência e trabalho.

Companheiros diante do Supremo Pastor

Talvez a principal contribuição de Owen seja ajudar-nos a abandonar duas imagens inadequadas. O pastor não deveria enxergar os presbíteros simplesmente como homens que precisam apoiar seus projetos. Os presbíteros, por sua vez, não deveriam enxergar o pastor como um funcionário. Há uma imagem melhor: irmãos colocados por Cristo lado a lado para cuidar do mesmo rebanho.

Uma igreja saudável, portanto, precisa mais do que bons pastores ou bons presbíteros; precisa de pastores e presbíteros que compreendam que foram chamados por Cristo para cuidar juntos do seu povo. Isso exige do pastor humildade para não centralizar o ministério e, dos presbíteros, disposição para não apenas supervisionar, mas participar efetivamente do cuidado do rebanho.

No final, a pergunta mais importante não será quem possuía mais autoridade, quem tomou mais decisões ou quem prevaleceu nas divergências. Diante de Cristo, o Supremo Pastor, a pergunta será muito mais simples: fomos fiéis no cuidado das ovelhas que ele confiou a nós? Afinal, o rebanho é um só, o Senhor é o mesmo e a responsabilidade de cuidar é compartilhada.

VALDECI DA SILVA SANTOS
Diretor do Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper - CPAJ
Pastor da Igreja Presbiteriana Campo Belo em São Paulo

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Autor: Valdeci Santos   |   Visualizações: 745 pessoas
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