Categoria: Artigo
Data: 12/07/2023
Assembleia de Westminster – 380 anos
No primeiro dia do segundo semestre de 1643 (01/07), teve início na majestosa Abadia de Westminster, em Londres, esse célebre encontro de pastores, pregadores e teólogos puritanos que elaboraram os assim chamados “Padrões de Westminster”, entre os quais a Confissão de Fé, o Catecismo Maior e o Breve Catecismo, aceitos como declarações doutrinárias oficiais de muitas igrejas presbiterianas ao redor do mundo.
A Assembleia se reuniu num dos períodos mais conturbados da história inglesa, o reinado de Carlos I (1625-1649), soberano conhecido por sua inabilidade política e medidas autoritárias. Em 1637, sua tentativa de impor o episcopado e a liturgia anglicana na Igreja da Escócia (presbiteriana) provocou intensas reações. No ano seguinte, os escoceses firmaram um pacto nacional e entraram em guerra contra o rei. Na Inglaterra, multiplicaram-se as ações truculentas de Carlos I e do arcebispo William Laud, nomeado por ele.
Nesse contexto, entrou em cena o chamado Longo Parlamento, de maioria puritana, que se reuniu de 1640 a 1660. Esse corpo legislativo se opôs tenazmente às políticas civis e religiosas do rei e em agosto de 1642 também levantou armas contra ele. Em janeiro do ano seguinte, o Parlamento aboliu o episcopado na Igreja da Inglaterra. Com isso, sentiu-se a necessidade de uma assembleia que pudesse oferecer um novo fundamento legal e teológico para a igreja inglesa. Em maio e junho de 1643, as Câmaras dos Comuns e dos Lordes aprovaram o decreto de convocação da Assembleia. Sua tarefa seria “estabelecer o governo e a liturgia da Igreja da Inglaterra e vindicar e isentar a doutrina da referida igreja de todas as falsas calúnias e acusações”.
A tarefa inicial de fazer simplesmente uma revisão dos Trinta e Nove Artigos de Religião (1563) foi ampliada depois que o Parlamento firmou uma aliança com os escoceses durante a Guerra Civil. Decidiu-se então harmonizar o governo eclesiástico e as convicções doutrinárias das igrejas da Inglaterra, Escócia e Irlanda mediante a elaboração de novos documentos que também revelassem um consenso com as igrejas reformadas do continente. Ao lado dos ingleses, participaram da Assembleia, alguns ilustres representantes da Igreja da Escócia, sem direito a voto.
Foram convocados para a Assembleia, também conhecida como Sínodo de Londres, 120 indivíduos, 30 dos quais eram parlamentares, mas somente a metade deles participou dos trabalhos com alguma regularidade. Até 1649, o principal período de atividade do concílio, foram elaborados sucessivamente o Diretório do Culto Público, a Forma de Governo Eclesiástico, a Confissão de Fé e os Catecismos. Também foi aprovado um Saltério. Todos esses documentos foram encaminhados ao Parlamento para discussão e aprovação final. As atividades se estenderam até 1652, mas os últimos anos foram dedicados principalmente ao exame de pregadores e professores.
Apesar da falta de consenso quanto ao governo eclesiástico, Westminster merece ficar ao lado do Sínodo de Dort, na Holanda, como o mais importante dos concílios protestantes. O Dr. Chad Van Dixhoorn, um especialista que publicou todas as atas conhecidas do notável evento, opinou que a Assembleia de Westminster foi um divisor de águas na codificação da teologia da pós-Reforma e teve um impacto incomparável na teologia e na espiritualidade do protestantismo. Referindo-se ao documento confessional mais valioso e influente elaborado pelo conclave, a Confissão de Fé de Westminster, o historiador William Beveridge ponderou: “Devemos ser gratos a Deus por essa declaração, sábia, completa e equilibrada de nossa fé que chegou até nós como preciosa herança da Assembleia de Westminster”.
O Dr. Alderi Souza de Matos é o historiador da IPB.