REORIENTANDO O MINISTÉRIO PASTORAL NA PANDEMIA


Reorientando o Ministério Pastoral na Pandemia

Valdeci Santos

 

Por mais difícil que possa ser, a verdade é que a COVID-19 não desaparecerá completamente em 2020 e seus efeitos poderão se arrastar por anos vindouros. Isso significa que a práxis ministerial continuará sofrendo mutações em sua dinâmica por longo período. Atualmente, mesmo após o término da quarentena em algumas regiões, os templos continuaram vazios, tanto por causa das orientações governamentais sobre o contingente de pessoas permitidas nos cultos, quanto pelo medo (em alguns casos, até pânico) e negligência de alguns membros da igreja em participar dessas reuniões. Em vista de tudo isso, aqueles pastores que pensavam estar dando apenas uma “pausa” na dinâmica ministerial com a qual estavam acostumados, alimentando a esperança de retorno no início do segundo semestre de 2020, agora precisam reorientar seus projetos e prática ministerial.

A ideia de um recomeço, uma reorientação, pode assustar alguns pastores e criar um peso a mais gerando até certo estresse. Afinal, muitos pastores trabalharam duro para conseguir estabelecer uma agenda ministerial que atendesse suas igrejas, algo que fosse factível e não prejudicasse a dinâmica familiar. Mas o avanço do Coronavírus em proporção pandêmica, a política de isolamento social, o medo disseminado e tantos outros detalhes, afetaram diretamente a prática ministerial e a dinâmica da “comunhão dos santos”. No início, os pastores tiveram que mergulhar em uma verdadeira “tecnologização”, procurando aprender a lidar com programas de computadores e alguns meios de interação social pela Internet, pois quase tudo foi reduzido ao universo virtual. Depois, vieram os aconselhamentos e acompanhamentos midiáticos, pois o isolamento intensificou a solidão e afetou relacionamentos entre as pessoas, seja no âmbito familiar ou eclesiástico. Além do mais, algumas ovelhas tiveram que ser acompanhadas nos momentos especialmente difíceis, quando perderam um ente querido ou foram infectadas, tiveram membros da família nessa mesma situação e até aqueles que perderam sua fonte de renda por causa do desemprego. O problema é que todos esses acompanhamentos precisam ser realizados à distância. Enquanto se esperava que a situação durasse pouco tempo, o que se sabe agora é que esse período será mais longo do que se imaginava.

Enfim, a realidade presente obrigada à reorientação da práxis ministerial e a pergunta que inquieta é: como fazer isso? Como as situações variam e o contexto ministerial difere de uma congregação para outra, temos que enfatizar que nunca existe um plano que atenda a todas as necessidades. Todavia, a elaboração de um planejamento ou organização ministerial exige alguns princípios norteadores que podem ser úteis nesse processo e se adaptam aos mais variados contextos.

Em primeiro lugar, considere sua missão ministerial. Em que consiste o seu chamado? Quais são os seus dons ministeriais e como você deveria utilizá-los? Nesse processo é importante lembrar que enquanto ministérios pastorais diferem em termos de contextos e possuem nuances próprias, o fato é que a missão fundamental de cada ministro é a mesma: glorificar a Deus pela prática do discipulado. Todo pastor, independente de seus dons espirituais, características ministeriais e habilidades pessoais, foi comissionado “com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo” (Ef 4.12). Todo ministro fiel ao seu chamado procurará conduzir pessoas à maturidade da fé em Cristo.

Tendo em vista esse princípio, é necessário discernir quais atividades ministeriais promovem efetivamente o discipulado e quais não o fazem. Talvez você se surpreenda com o fato de que as atividades ministeriais que efetivamente promovem o discipulado permaneceram intactas pela pandemia. Por exemplo, as pessoas continuam necessitando de aconselhamentos, instruções, amizades e cuidado. Assim, podemos usar diferentes canais nesse exercício, mas a missão pastoral continua sendo fundamentalmente pessoal e interativa.

Em segundo lugar, procure listar o que você tem conseguido realizar no pastorado a despeito do isolamento e medo causados pela pandemia. É possível nos sentirmos frustrados em relação ao que não conseguimos fazer e, ao mesmo tempo, ignorarmos as coisas que ainda conseguimos praticar. Certamente não podemos mais ter grandes aglomerações, retiros espirituais, encontros presenciais de casais ou numerosas reuniões de jovens. Naturalmente lamentamos a ausência dessas atividades, mas não podemos ficar apenas lamentando, pois há muito que ainda podemos realizar quanto ao crescimento espiritual do Corpo.

Os diferentes meios de comunicação permitem contatos diários capazes de edificar a muitos e nossas pregações podem ser compartilhadas com inúmeras outras pessoas. Também, não importa onde estamos, sempre podemos interceder pelo rebanho, ler passagens bíblicas pelo telefone e desenvolver algumas conversações edificantes com os irmãos. Em alguns lugares, é possível até manter algumas reuniões, ministrar a Ceia e outras atividades com pequenos grupos e em áreas abertas. O fato é que essa estação de “pequenos esforços” pode, ao final, se manifestar extremamente frutífera e abençoadora. Logo, ao invés de permanecer lamentando, podemos agir com criatividade e fortalecer outras práticas que há tempos não exercíamos.

Em terceiro lugar, precisamos explorar melhor algumas oportunidades providenciadas pelo universo virtual. Como já foi dito acima, a maravilha da tecnologia é que independente do distanciamento social, algumas atividades ministeriais podem ser praticadas. No entanto, os pastores ainda podem aproveitar melhor essas oportunidades. Por exemplo, é possível realizar discipulados um a um com o uso do Skype, Zoom, Stream, Google Meet, FaceTime e outros programas, mas muitos pastores não estão fazendo isso. Também é possível manter os Pequenos Grupos de estudo da Bíblia, orações e compartilhamentos, mas nem todos têm aproveitado desses recursos. Se considerarmos o ministério com jovens, essas ferramentas não são apenas necessárias, mas essenciais, pois o jovem parece estar conectado 24x7 (24 horas por dia e 7 dias na semana). Ainda, dependendo da igreja, é possível manter Encontros Virtuais Semanais com todos os membros, o que ajuda a alimentar o sentimento de comunidade e mantém todos informados sobre a situação de cada pessoa. Em todo caso, é sempre prudente lembrar à igreja que esses canais estão sendo usados como expressão de cuidado pastoral com o rebanho e prudência nesse momento em que o distanciamento é exigido. A igreja não pode se acomodar ao universo virtual a ponto de relutar ao retorno das atividades presenciais mais tarde.

Em quarto lugar, busque dar atenção devida àqueles que fazem parte dos grupos de risco, principalmente os idosos. Devemos lembrar que o distanciamento social é especialmente difícil para a pessoa idosa, pois para alguns, esse processo resulta em isolamento maior do que já estão acostumados. Para algumas pessoas idosas, as reuniões presenciais na igreja são suas únicas oportunidades de interações semanais. O distanciamento social por causa da pandemia mudou isso! Além do mais, o medo da transmissão fez com que filhos e netos de alguns desses idosos passassem a evitar até aqueles encontros presenciais que já eram escassos. Se acrescentarmos a isso o fato de que o idoso nem sempre está familiarizado com os avanços tecnológicos, é possível compreender as dificuldades que esse grupo enfrenta nesse período. Logo, na reorientação ministerial, os idosos devem ser especialmente considerados por cada pastor.

No cuidado com as pessoas desse grupo de risco, nossos presbíteros e diáconos poderiam contribuir, realizando um rodízio entre eles para realizarem ligações telefônicas, conversas e orações com esses queridos irmãos. Essa participação de outros oficiais é particularmente importante pelo fato de que muitos idosos têm mais intimidades com esses outros líderes a quem já conhecem de longas datas. Além do mais, isso acaba trazendo certo alívio para a agenda do ministro. Qualquer que seja o plano, o fato é que os idosos não podem ser negligenciados.

Em quinto lugar, é necessário manter a flexibilidade nas decisões tomadas. Em um período de tantas incertezas como esse, as decisões podem ser alteradas à medida que surge um dado novo. O mesmo ocorre no ministério e no planejamento eclesiástico. Se mantivermos a postura inflexível e perfeccionista, o desapontamento será certo e seguro. Nesse sentido, é encorajador manter diferentes opções ministeriais em mente e alimentar diferentes planos a serem executados em diferentes ocasiões. Logo, toda sugestão deve ser apreciada e considerada, sendo colocada em execução somente no momento oportuno.

Pastores inflexíveis têm dificuldades maiores para se adaptarem à nova realidade e sofrerão mais intensamente na reorganização de suas atividades ministeriais. Eles ainda resistirão mais intensamente às novas ideias e contribuições de outros líderes da igreja. Logo, o contexto atual nos convida à flexibilidade.

A verdade é que a pandemia trouxe dificuldades às pessoas no geral e aos pastores em particular. O pior é que nenhum de nós pode descansar na certeza de que não teremos outras surpresas ou novos desafios. Porém, em todo o processo de reorientar nosso ministério pastoral, podemos estar seguros da bondade soberana do Senhor que em todo tempo abençoa seus servos. Por isso, querido irmão, pastor, saiba que Deus possui planos para o seu ministério. Os formatos desses planos podem variar em relação ao que você experimentou nos anos anteriores, mas no cerne, o propósito do Senhor é continuar usando você, seus dons e habilidades como instrumentos em Suas mãos para o amadurecimento dos santos. Assim, procure remir o tempo nesses dias maus e agir com sabedoria. Que o Bondoso Senhor continue nos abençoando.