PASTORES VS PROFISSIONAIS


Pastores vs. Profissionais

Valdeci Santos

 

Os desafios e oportunidades dos dias atuais clamam por um ministério genuíno, alicerçado no conceito bíblico de pastoreio. Há uma necessidade notória de que o ministro contemporâneo seja pastor de almas. Todavia, o que se observa no meio eclesiástico, especialmente nos círculos de liderança, é uma ênfase em outra direção. Hoje os paradigmas ministeriais parecem estar mais ligados a conceitos de gestão empresarial, administração de resultados, crentes como clientes, do que ao conceito bíblico do ministro como pastor de ovelhas. Muitas obras sobre liderança pastoral parecem ter sido simplesmente “rebatizadas” com terminologia evangélica e lançadas no mercado cristão. Há muitos especialistas em crescimento de igreja aplicando a “lógica do mercado” à vivência e liderança eclesiásticas. Nesse processo, pessoas são substituídas por programas, relacionamentos por tarefas e comunhão por números. De acordo com essa tônica, ao invés de Jesus ter dito a Pedro: “. . . pastoreia as minhas ovelhas”, ele deveria ter dito: “administra minha empresa!”.

Um dos problemas da filosofia “igreja-empresa” é que ela exclui os aspectos básicos do que significa ser “corpo vivo de Cristo”. Ao substituir o modelo bíblico de igreja como a comunidade dos remidos pelo modelo empresarial de marketing, a qualidade total substitui o total da qualidade na vida cristã. Como resultado, os crentes tornam-se ovelhas sem pastor e o ministro torna-se um mero secretário executivo ou um gerente do rebanho. Em ambos os casos, o mais provável de ser atingido é a frustração, pois Cristo não se entregou para fundar uma empresa, mas para remir, “para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras” (Tt 2.14). Semelhantemente, o ministro não foi chamado para ser um administrador de empresas, mas um apascentador de ovelhas (João 21.17).

Há imensas diferenças entre o pastoreio de almas e o profissionalismo ministerial. Quanto mais profissionais os pastores almejarem ser, mais morte espiritual eles deixarão por onde trilharem. O profissional desconhece o suspiro pela íntima comunhão com Deus (Sl 42.1), o valor de derramar-se diante de Deus em oração em prol de sua igreja (Ef 3.14-19), a importância de levar sempre “no corpo o morrer de Jesus para que sua vida se manifeste em nosso corpo” (2Co 4.10), a necessidade de sofrer as dores de parto até que Cristo seja formado em outros (Gl 4.19), e muito mais. É impossível perseguir o prêmio da soberana vocação (Fp 3.14) de uma forma profissional. Além do mais, os alvos do ministério pastoral são eternos e espirituais, ao invés de meras conquistas profissionais.

Concluindo, a profissionalização do ministério é uma ameaça constante à pureza da igreja, seus membros e ministros. A busca pelo sucesso profissional aniquila, no coração do pastor, a prioridade de atender por sua própria alma e pelo rebanho sobre o qual o Espírito Santo o constituiu bispo, para pastorear a igreja de Deus (Atos 20.28). O mundo determina a agenda do profissional; Deus determina a agenda do pastor do seu rebanho. Ecoando a exortação de John Piper, necessitamos deixar claro para todo o nosso rebanho: “Irmãos, não somos profissionais!”.