LIDERANÇA NEGATIVA NA IGREJA


Liderança Negativa na Igreja

Liderança eclesiástica é mais importante do que muitos imaginam. Alguns testemunhos do passado têm nos lembrado que “uma igreja local é o reflexo de sua liderança” e que “nenhuma igreja normalmente se desenvolve espiritualmente acima dos seus líderes”. Essas declarações indicam que o exemplo e o trabalho dos líderes podem ser mais significativos do que eles têm noção. Exercer liderança na igreja é muito mais do que se apossar de um título (pastor, presbítero, diácono, presidente, conselheiro etc.). Líderes necessitam se envolver com a comunidade e representar Cristo em suas atitudes para com o rebanho. Na verdade, todo aspecto da liderança cristã implica representar Cristo, tanto no procedimento quanto nas palavras. Logo, o que importa são os interesses do Senhor da Igreja, o Supremo Pastor das ovelhas (cf. 1Pe 5.4). Alguns líderes se esquecem desse detalhe e acabam procedendo e decidindo em interesse próprio ou em benefício de seus familiares e amigos, o que é lamentável.

Em certo sentido, é o líder quem inspira o visitante a retornar à igreja no próximo domingo e quem ajuda o membro a crescer espiritualmente. Sem uma boa liderança é muito difícil que a igreja local prospere em sua missão nesse mundo. Nesse caso, ela fica estagnada, atolada em questões secundárias e picuinhas que consomem energia, criatividade e alegria do povo de Deus. O Antigo Testamento está repleto de exemplos de reis que fizeram o que era bom aos olhos do Senhor e a nação de Israel cresceu em piedade. Porém, quando se levantava um rei que aborrecia Deus, o povo se desviava para a idolatria. A lição é que o desenvolvimento de uma geração de crentes, humanamente falando, está intimamente conectado ao bom exercício da liderança sobre o povo de Deus.

Algumas igrejas possuem líderes qualificados e piedosos, cujas atitudes são extremamente benéficas para a saúde e crescimento do rebanho de Cristo. Todavia, essa não é a realidade compartilhada por todas igrejas na cristandade. Infelizmente, há líderes cujo exercício da liderança acaba sendo tóxico e prejudicial ao próprio rebanho que o elegeu. O resultado disso é que todo o trabalho da igreja e o esforço de alguns membros bem-intencionados são prejudicados pela atitude de poucos.

Recentemente, Thom S. Rainer, pesquisador americano e professor de missões e crescimento de igrejas, listou algumas características de líderes que exercem sua função de maneira negativa e prejudicial à comunidade. Passo a descrevê-las abaixo como um recurso para autoavaliação. Melhor ainda seria compartilhar esse recurso com as demais pessoas que exercem posições de liderança na igreja local, à fim de haver o zelo de evitar esses defeitos e crescer na graça de Cristo enquanto servimos sua igreja. As observações de Rainer são resumidas nos tópicos abaixo.

  1. A falta da demonstração do fruto do Espírito. As virtudes descritas por Paulo em Gálatas 5.22-23 como amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio são raramente percebidas na vida de líderes que prejudicam o rebanho ao invés de abençoá-los. O problema é que onde o fruto do Espírito está ausente, geralmente as obras da carne triunfam.
  2. O desconhecimento das Escrituras e a ignorância doutrinária. Jesus afirmou que os fariseus erravam por não conhecerem as Escrituras, nem o poder de Deus (Jo 5.39). Quando alguém assume a posição de liderança na igreja local sem conhecer os ensinos da Palavra, o rebanho fica confuso e sujeito aos diferentes ventos de doutrina.   
  3. Aversão a qualquer estrutura de prestação de contas. O desejo de alguns líderes é operar e decidir em total liberdade, não tendo que prestar contas pelos seus atos. Esse estilo de liderança autocrática, porém, não condiz com os princípios bíblicos, pois na igreja todos estamos sujeitos uns aos outros. Além do mais, quando Paulo escreve a Timóteo, ele afirma que “devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem” (1Tm 5.17). Isso indica que a função e os esforços dos líderes neotestamentários eram comumente avaliados.
  4. A exigência de comportamento dos outros que eles não demonstram pelo exemplo pessoal. Como diz a frase conhecida: “Faça o que eu mando, não o que eu faço”. No entanto, a incoerência do líder irrita e frustra seus liderados. Além do mais, essa é apenas outra maneira de olhar para as pessoas como se fossem inferiores.
  5. A prática do favoritismo. Em outras palavras, esses líderes se tornam pastores apenas de um grupo e não de todo o rebanho. Enquanto favorecem alguns, marginalizam e desprezam outros.
  6. O uso da manipulação para atingir seus propósitos. A tática comum nesse sentido é o apelo aos sentimentos ou o oferecimento de algum benefício pessoal àqueles que intentam conquistar. Porém, como ocorre em todo processo manipulativo, uma vez atingidos seus objetivos, descartam e se esquecem das pessoas que foram usadas.
  7. A falta de transparência nas questões administrativas e financeiras. Líderes autocratas geralmente não são transparentes. Parece que eles têm a necessidade de manter seus liderados na ignorância quantos aos seus verdadeiros motivos e ações.
  8. A desistência e o abandono dos mais fracos, ao invés de ajudá-los a crescer espiritualmente. Devido ao fato de alguns líderes usarem pessoas como meios para determinados fins, os mais fracos nem sempre oferecem grandes contribuições, pois são carentes. Nesse sentido, é comum que maus líderes simplesmente ignorem ou até mesmo descartem os crentes mais fracos ao invés de ajudá-los a progredir na vida espiritual.
  9. A formação de um grupo de apoio para validar os erros cometidos. Esse grupo funciona como uma espécie de “fã clube”, cujo objetivo é reprimir as manifestações de insatisfação com decisões e ações prejudiciais ao restante do rebanho. Quando se ouve apenas os aplausos, não se percebe o que necessita ser corrigido.
  10. A deficiência na comunicação. Quando o procedimento é questionável, normalmente a comunicação é deficiente, pois nem tudo pode ser dito. Com isso, é característico de uma liderança negativa não se preocupar muito em prestar esclarecimentos aos seus liderados. Nesses casos, o que é noticiado, em geral, é obtuso e ininteligível.

Claro que esses não são os únicos elementos que caracterizam uma liderança deficiente. Poderíamos discorrer sobre o fato de que esse estilo de liderança é centralizadora, fascinada consigo mesma, desprovida de amor fraternal e assim por diante. Os detalhes mencionados, porém, oferecem um “guia” para autoavaliação tanto do pastor quanto do conselho de uma igreja local. Caso esse exame não seja feito, aqueles cujo estilo de governo trazem tantos danos à igreja de Cristo permanecerão indo de mal a pior, até que o Supremo Pastor manifeste sua indignação disciplinadora a esses que ferem o rebanho.

Valdeci Santos