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UNIVERSIDADE, EDUCAÇÃO E CORRUPÇÃO Imprimir E-mail

 

 

CARTA DE PRINCÍPIOS 2012

 

INTRODUÇÃO

Um dos temas que tem dominado o cenário brasileiro em anos recentes é a questão da corrupção. O termo tem sido usado pela mídia e população em geral para se referirem ao desvio de dinheiro público, irregularidades graves no emprego de verbas governamentais, desvio de funções para vantagens pessoais por parte de servidores públicos, falseamento da verdade para ganhos ilícitos, acordos subterrâneos e pactos ocultos, lavagem de dinheiro, tráfico de influência e outras atitudes e atividades ilegais, imorais e injustas.

Diante desse cenário, é importante destacar o entendimento cristão quanto às causas e conseqüências da corrupção, bem como as atitudes possíveis de combatê-la. Esse é o tema desta Carta de Princípios 2012 da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

CORRUPÇÃO: ORIGENS E ASPECTOS

Definindo a corrupção

O sentido próprio do termo é deterioração ou apodrecimento. Os sentidos secundários derivam dessa idéia original. Toda vez que alguém deixa de cumprir o seu dever estabelecido diante de pessoas, instituições e até mesmo ideais - por interesse próprio ou de terceiros - ocorre a corrupção.

Quase sempre associamos a corrupção aos ambientes estatais. Já em 2005, conforme notícia publicada no Financial Time, o então presidente da Controladoria Geral da União do Brasil, Waldir Pires, afirmava que mais de 20% dos gastos públicos no país são perdidos para a corrupção, o que, somente em 2004, correspondeu a mais de R$ 18,5 bilhões. A mesma reportagem dava conta de que, em auditorias realizadas pela CGU em 741 dos 5.500 municípios brasileiros, escolhidos aleatoriamente, foram descobertas irregularidades graves em 90% deles e algum tido de irregularidade em todos eles.1 Os números atuais da corrupção certamente superam esses dados.

Todavia, a corrupção ocorre também na esfera particular. Há práticas corruptas ao nosso redor, inclusive em nossas próprias ações. Por exemplo: existência de “caixa dois” em empresas ou uso de pessoas como “laranjas” em negócios irregulares, compra e venda de produtos pirateados, uso de “softwares” baixados sem permissão dos seus proprietários, pedido e/ou concessão de notas em atividades escolares, com base em amizades ou outra forma de relacionamento. Por isso, o conhecido “jeitinho” brasileiro é, em uma análise objetiva e séria, simplesmente corrupção.

Os efeitos da corrupção

A corrupção pode parecer ter um lado bom, especialmente para os aparentemente “beneficiados” por ela, contudo não podemos fechar os olhos para o grande mal que ela traz para a sociedade. A corrupção é fator de injustiça social, porque tira os direitos de muitos, impede o desenvolvimento justo e equânime dos cidadãos, produz um efeito cascata que começa no topo e corrompe a população como um todo, anestesia a consciência, afronta a lei e promove a impunidade. Ela também frustra a motivação dos que buscam as recompensas materiais por meios legítimos de conduta, visto o enriquecimento questionável e rápido de alguns.

Além disso, não raramente, a rede de ações corruptas se vale de atitudes violentas para acobertar suas mazelas. Portanto, nada há que realmente justifique a corrupção.

As causas da corrupção

Cremos ser importante refletir sobre as causas da corrupção, pois quando elas são identificadas, há condições de se buscar o remédio adequado.

Geralmente as fragilidades da estrutura político-jurídico-financeira são responsabilizadas como a causa da corrupção estatal. O ministro-chefe da Controladoria-Geral da União, Jorge Hage, disse em pronunciamento durante um evento em 2011 que a corrupção no país decorre principalmente do financiamento privado de campanhas e de partidos, do sistema eleitoral, dos meandros da elaboração do orçamento público e impunidade garantida pelas leis processuais penais.

Embora existam causas externas para a corrupção, não se pode negar que o problema reside, em última análise, no coração das pessoas. A fé reformada vê o próprio coração dos homens como a origem primária da corrupção. A Bíblia afirma que não há sequer uma pessoa justa neste mundo. “Todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Romanos 3.23). Jesus Cristo disse que é do coração das pessoas que procedem “maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias” (Mateus 15.19-20).

Na análise feita pela sociedade, é possível perceber a insuficiência de éticas humanistas reducionistas, que analisam apenas aspectos sociológicos e políticos da corrupção. Como resultado, as propostas de “redenção” contemplam apenas medidas repressivas, melhorias na educação, uma melhor legislação, as propostas de determinado partido político ou candidato.

Tais medidas, mesmo sendo necessárias e boas, deixam de contemplar a dimensão pessoal do problema: egoísmo, maldade, avareza, inveja e cobiça.

O protestantismo reformado prega uma conversão interior dos governantes e dos governados a Deus e conclama que todos se arrependam do mal e pratiquem obras de justiça.

Por que a corrupção continua e se fortalece?

Podemos pensar em várias respostas para essa pertinente indagação. A primeira é a sua banalização. Existe hoje maior divulgação dos casos de corrupção e da impunidade dos corruptos que no passado. Ao que parece, isso tem levado a sociedade a certo grau de indiferença quanto à sua gravidade.

Como conseqüência prática, a luta contra esse mal chega a parecer um trabalho inútil.

Em segundo, existe uma sensação pessoal de culpa, a qual leva à cumplicidade e, portanto, ao silêncio. Apesar de as pessoas condenarem os políticos e empresários corruptos, muitas delas também praticam a corrupção na vida pessoal, como, por exemplo, transgredindo as leis dos direitos autorais, praticando o suborno, driblando a legislação tributária, entre outros.

Pelas causas acima, a corrupção acaba sendo vista e consagrada como “um mal sem remédio”. Isso favorece sua prática, alimenta os males que ela gera, conserva a impunidade e fomenta a permanência desse nocivo tipo de atividade. Nas palavras de João Calvino, “a impunidade é a mãe da libertinagem”.

O combate à corrupção

Apesar de estar tão profundamente enraizada no ser humano e na sociedade, a corrupção tem sido combatida em todas as épocas. Nas palavras de Celso Barroso, “tão antiga quanto à corrupção é a luta contra ela; em toda parte se dá valor à integridade, e sempre se deu. Podemos desrespeitar os valores morais, porém não chegamos a negá-los”.

Segundo a visão cristã de mundo, a razão pela qual os seres humanos não conseguem conviver tranqüila e passivamente com a corrupção é porque foram criados à imagem de Deus e porque Deus ainda age neste mundo.

Essa ação de Deus no mundo em geral é chamada de graça comum (concedida a todos). Segundo esse conceito, Deus abençoa toda a humanidade com virtudes e qualidades, independentemente das convicções religiosas das pessoas. Além disso, Deus instituiu os governos não somente para promover a justiça e o bem comum, mas também para punir os malfeitores e os corruptos (Romanos 13).

No Brasil, os principais órgãos responsáveis pelo combate à corrupção estatal, em todos os aspectos, são o Tribunal de Contas da União (TCU) - principal órgão de fiscalização do dinheiro e dos bens públicos, e a Controladoria Geral da União (CGU), órgão que responde pelo Brasil perante a Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção e, com exposição recente mais ampla, o Conselho Nacional de Justiça (CJN), que aflorou o fato de que, infelizmente, nem mesmo os nossos juízes estão imunes à corrupção e seus efeitos danosos.

O combate à corrupção, todavia, cabe também à população. A sociedade deve agir e cobrar medidas públicas contra a corrupção. É preciso reafirmar o repúdio a essa prática, enfatizar a necessidade de transparência nas contas públicas, apoiar as iniciativas civis no combate aos desmandos e promover a ética no trato das questões públicas. Na esfera eclesiástica, em que deveria estar o exemplo, é preciso também repudiar as práticas financeiras desonestas de muitas igrejas.

Diante desse necessário combate, encontramos o papel das universidades confessionais.

O PAPEL DA UNIVERSIDADE CONFESSIONAL

Uma instituição de ensino que se pauta pelos princípios da visão cristã de mundo poderá contribuir de diversas maneiras para que a corrupção seja pelo menos reduzida. Com relação às causas externas, deve incluir o ensino e a transmissão de valores cristãos, tais como: honestidade, integridade, verdade, justiça e amor ao próximo. Somos responsáveis por uma boa mordomia dos recursos que Deus nos confiou.

Esse papel de integração da ética à academia é algo que vem sendo reconhecido até nas instituições de ensino superior sem características confessionais, por razões meramente realistas e práticas. Uma reitora, no contexto da crise européia, que desde 2008 assola o velho mundo, chamou a atenção das universidades para a falta de ética e a aplicação deficiente de práticas saudáveis de negócios. Ela declarou que todos os operadores do sistema financeiro freqüentaram os bancos universitários e provocou o incômodo questionamento: será que não falta maior ênfase na ética de negócios, em nossos currículos? Segundo a reitora, “as instituições têm que assumir a sua quota de ensinamento pela vivência de valores que devem reger uma sociedade de bem”.

Nesse caminho, como instituição confessional, devemos ter um interesse redobrado sobre o entrelaçamento da ética com a formação acadêmica, como uma das armas contra a corrupção de nossa sociedade.

Com relação à causa interna, que é a corrupção da mente e do coração humanos, a instituição confessional cristã deve sempre lembrar aos seus alunos, que somos responsáveis por nossos atos e que não podemos responsabilizar a sociedade, o governo e os outros pelos nossos desvios de conduta. Por fim, deve anunciar, sempre respeitando a consciência de todos, que Deus, em Jesus Cristo, nos oferece perdão pelos nossos desvios e uma mudança interior, dando-nos uma nova orientação e esperança na vida, tendo como alvo amar ao próximo e a Deus. Cultivamos, assim, uma expectativa realista de mudança sabendo que o nosso trabalho não é vão diante de Deus.

CONCLUSÃO

O cristianismo reconhece que não é possível a existência de uma sociedade que seja completamente isenta da corrupção. A nossa esperança é o mundo vindouro, escatológico, a ser inaugurado com o retorno de Jesus Cristo, quando as causas da corrupção serão removidas para sempre. O que não significa que não devamos, com todas as nossas forças, lutar para que os valores do Reino de Deus sejam implantados aqui neste mundo, por meio de uma boa educação integral, que contemple não somente a formação intelectual e profissional, como também a formação de cidadãos éticos e compromissados com os valores morais que servem de base para famílias e sociedades sólidas e justas.

Rev. Dr. Augustus Nicodemus Lopes

Chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie

 
Verdades e Mitos sobre a Páscoa Imprimir E-mail

*Rev. Augustus Nicodemus Lopes

 

Nesta época do ano celebra-se a Páscoa em toda a cristandade, ocasião que só perde em popularidade para o Natal. Apesar disto, há muitas concepções errôneas e equivocadas sobre a data.

A Páscoa é uma festa judaica. Seu nome, “páscoa”, vem da palavra hebraica pessach que significa “passar por cima”, uma referência ao episódio da Décima Praga narrado no Antigo Testamento quando o anjo da morte “passou por cima” das casas dos judeus no Egito e não entrou em nenhuma delas para matar os primogênitos.

A razão foi que os israelitas haviam sacrificado um cordeiro, por ordem de Moisés, e espargido o sangue dele nos umbrais e soleiras das portas. Ao ver o sangue, o anjo da morte “passou” aquela casa. Naquela mesma noite os judeus saíram livres do Egito, após mais de 400 anos de escravidão. Moisés então instituiu a festa da “páscoa” como memorial do evento. Nesta festa, que tornou-se a mais importante festa anual dos judeus, sacrificava-se um cordeiro que era comido com ervas amargas e pães sem fermento.

Jesus Cristo foi traído, preso e morto durante a celebração de uma delas em Jerusalém. Sua ressurreição ocorreu no domingo de manhã cedo, após o sábado pascoal. Como sua morte quase que certamente aconteceu na sexta-feira (há quem defenda a quarta-feira), a “sexta da paixão” entrou no calendário litúrgico cristão durante a idade média como dia santo.

Na quinta-feira à noite, antes de ser traído, enquanto Jesus, como todos os demais judeus, comia o cordeiro pascoal com seus discípulos em Jerusalém, determinou que os discípulos passassem a comer, não mais a páscoa, mas a comer pão e tomar vinho em memória dele. Estes elementos simbolizavam seu corpo e seu sangue que seriam dados pelos pecados de muitos – uma referência antecipada à sua morte na cruz.

Portanto, cristãos não celebram a páscoa, que é uma festa judaica. Para nós, era simbólica do sacrifício de Jesus, o cordeiro de Deus, cujo sangue impede que o anjo da morte nos destrua eternamente. Os cristãos comem pão e bebem vinho em memória de Cristo, e isto não somente nesta época do ano, mas durante o ano todo.

A Páscoa, também, não é dia santo para nós. Para os cristãos há apenas um dia que poderia ser chamado de santo – o domingo, pois foi num domingo que Jesus ressuscitou de entre os mortos. O foco dos eventos acontecidos com Jesus durante a semana da Páscoa em Jerusalém é sua ressurreição no domingo de manhã. Se ele não tivesse ressuscitado sua morte teria sido em vão. Seu resgate de entre os mortos comprova que Ele era o Filho de Deus e que sua morte tem poder para perdoar os pecados dos que nele creem.

Por fim, coelhos, ovos e outros apetrechos populares foram acrescentados ao evento da Páscoa pela crendice e superstição populares. Nada têm a ver com o significado da Páscoa judaica e nem da ceia do Senhor celebrada pelos cristãos.

Em termos práticos, os cristãos podem tomar as seguintes atitudes para com as celebrações da Páscoa tão populares em nosso país: (1) rejeitá-las completamente, por causa dos erros, equívocos, superstições e mercantilismo que contaminaram a ocasião; (2) aceitá-las normalmente como parte da cultura brasileira; (3) usar a ocasião para redimir o verdadeiro sentido da Páscoa. Eu opto por esta última, pois a primeira é por demais reacionária e enfoca nos elementos pagãos da ocasião em detrimento dos elementos cristãos em sua origem. A segunda traz confusão, especialmente para nossos filhos, na cabeça de quem páscoa é coelho e ovo. Na última opção podemos aproveitar a ocasião para explicar, pregar, publicar e anunciar a quem pudermos o que a Páscoa significa."

Eu opto por esta última.

 
Teologia: da teoria à prática Imprimir E-mail

 

*Rev. Milton Jr.

 

Eu já me preparava para sair do gabinete pastoral e ir para casa quando Murilo (nome fictício) chegou. Ele era um jovem de uns 26 anos que vivia pelos fóruns de discussão da vida (na web), debatendo teologia reformada. Segundo o que me informou, ele havia ouvido falar que eu era um pastor de linha reformada e, como estava desanimado com a comunidade que frequentava, resolveu ir conversar comigo.

Teologia na cabeça

Após tentar me impressionar com todo o seu conhecimento teológico, ele perguntou se haveria problema em me fazer algumas perguntas. Após eu dizer que não havia problema algum, ele passou então a avaliar a minha teologia (parecia até exame de presbitério).

Depois de algum tempo, parece que ele ficou satisfeito com minhas respostas e aí passou para uma segunda fase. Agora ele pediu para ver minha biblioteca. Mais uma vez disse que ficasse à vontade.

Ele se levantou e começou a “averiguação”. Quando via um livro de algum autor brasileiro fazia questão de comentar: “Esse cara é muito bom!” Como tive o privilégio de estudar em uma excelente instituição, que contava com alguns desses autores no seu corpo docente, eu respondia: “Foi meu professor no seminário.”

Depois disso, aquele jovem, que parecia ainda mais precavido que os bereanos (pois estes analisavam o que ouviam pelo crivo das Escrituras (At 17.11), e ele já estava analisando o que possivelmente iria ouvir para ver se valeria a pena) e que, em princípio, se mostrava alguém que manejava bem a palavra da verdade (2Tm 2.15), afirmou: “Pastor, eu vou frequentar sua congregação.” Finalmente eu estava “aprovado”.

Teologia sem prática

Depois de ouvir o Murilo por bastante tempo, responder às suas perguntas, ser avaliado e ouvir a notícia de que ele iria frequentar a congregação, falei a ele que agora eu é que gostaria de fazer algumas perguntas. Ele assentiu ao pedido.

Passei então a questioná-lo sobre a razão de gostar tanto da teologia reformada. Perguntei se era simplesmente por causa da sua beleza, lógica, por causa das discussões acadêmicas, etc., ou se era porque ele entendia ser ela uma interpretação fiel das Escrituras e, sendo assim, algo que o faria conhecer mais intimamente a Deus enquanto, pelo Espírito do Senhor, o habilitava a se afastar cada vez mais do pecado. Afirmei ainda que, se a segunda opção fosse a razão de amar a teologia reformada, ele seria muito bem-vindo à congregação.

Alguns instantes de silêncio.

Depois disso, Murilo confessou que gostava muito das discussões teológicas, mas que estava preso ao pecado da pornografia. Nesse momento, passei então a aconselhá-lo.

Teologia na prática

Comecei a falar ao Murilo sobre a gravidade do pecado e da ofensa àquele que deu sua vida no Calvário a fim de vivermos em novidade de vida. Ele respondia que era muito difícil se livrar da pornografia.

Mesmo sabendo que tratar o comportamento em si não resolveria nada enquanto ele não chegasse à raiz do problema, instruí-o então a “cortar o fio da internet”, pois era onde ele mais via pornografia. Meu objetivo era demonstrar a teologia na prática para alguém que só a tinha no campo das ideias.

A resposta não poderia ser outra. Murilo afirmou que necessitava da internet para ver e-mails do trabalho e que não podia ficar sem acesso, então, pedi que ele mudasse o computador do seu quarto para a sala de casa e que todas as vezes que fosse acessar a rede pedisse que sua mãe se assentasse a seu lado.

Dito isso, perguntei-lhe: “Você teria coragem de acessar pornografia com sua mãe ao lado?” De olhos arregalados Murilo respondeu rapidamente: “Tá doido, pastor!?” Cheguei então ao ponto que eu queria demonstrar a ele.

Aquele jovem, que conhecia muito bem a sua mãe, sabia que ela não aceitaria um comportamento como aquele e, por temê-la, se absteria de ver algo que ele havia afirmado ser muito difícil ficar sem.

Porém, mesmo sabendo o que a teologia diz sobre Deus, seu caráter e sua Santidade, na prática ele demonstrava que não cria, de fato, em tudo aquilo. Ele não conhecia ao Senhor da mesma maneira que conhecia a sua mãe, ainda que tivesse muitas informações a respeito dele.

Eu me propus a continuar conversando com ele e tentar ajudá-lo em sua luta contra o pecado, por meio do estudo das Escrituras, mas nunca mais o vi. Por fim ele se mostrou mais parecido com aqueles falsos mestres mencionados na carta de Paulo a Tito que “no tocante a Deus, professam conhecê-lo; entretanto, o negam por suas obras” (Tt 1.16).

Para alguém que ama o pecado, o conhecimento teológico só servirá para trazer maior condenação. Jesus, em uma parábola, afirmou: “Aquele servo, porém, que conheceu a vontade do seu senhor e não se aprontou, nem fez segundo a sua vontade, será punido com muitos açoites. Aquele, porém, que não soube a vontade do seu senhor e fez coisas dignas de reprovação levará poucos açoites. Mas àquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão” (Lc 12.47-48).

O conhecimento das Escrituras é uma grande bênção que o Senhor nos concede, mas que deve vir acompanhado de uma vida prática a fim de que o homem seja bem-aventurado, ao invés de enganar a si mesmo (Tg 1.22-25).

Que o Senhor nos conceda a bênção de ser como Esdras, que dispôs o coração não só para buscar a Lei do Senhor, mas também para cumpri-la e ensinar seus estatutos e juízos (Ed 7.10).




[1] Murilo é um nome fictício, para preservar a identidade da pessoa a quem se refere o caso.

 
Mulher - Parabéns pelo seu dia! Imprimir E-mail

 

Por rev. Mauro Sergio Aiello*

 

A emancipação da mulher começou com o Cristianismo. Como disse Peter Marshal, “teve início numa noite, há quase dois mil anos, quando veio a uma mulher chamada Maria uma mensagem dos céus”.

A Bíblia fala de mulheres notáveis como: Joquebede, mãe de Moisés; Raabe, a prostituta que ocultou os espias em Jericó e que acabou entrando na genealogia de Jesus. Quem diria que uma coisa dessas pudesse acontecer? Outra mulher extraordinária foi Débora, profetisa e juíza de Israel a quem Deus entregou Sísera, inimiga do povo de Deus. Porque não reverenciar a Abigail, esposa do maligno Nabal. Essa mulher, com sabedoria, prudência e humildade, evitou a destruição de sua família. Devemos nos lembrar de Ana como exemplo de oração e de alguém que cumpriu sua palavra. Não podemos nos esquecer de Rute, Ester e também aquelas tantas mulheres que ajudaram Paulo em seu ministério. Em Romanos 16 há os nomes de muitas delas.

Eu me recordo da história de Mônica, mãe de Agostinho, Bispo de Hipona, um dos maiores Teólogos de toda a história do Cristianismo. Agostinho vivia dissoluta e irresponsavelmente, e sua mãe, Mônica, orava constante e ininterruptamente por ele. Agostinho foi convertido e tornou-se fonte de bênçãos para todos nós até hoje.

Não podemos discutir o valor da mulher como auxiliadora idônea do homem. O jargão popular que afirma: “Por detrás de um grande homem, há sempre uma grande mulher”, é mesmo verdade. Poderíamos até, incrementar o ditado popular e dizer: “Um homem só se torna grande se houver ao seu lado, uma grande mulher que lhe seja, a mãe ou esposa, ou ambas simultaneamente”.

Não há dúvida nenhuma do valor e da importância da mulher no contexto da família e da sociedade em geral. A influência da mulher é uma força aparentemente oculta, mas sempre constante, tem determinado a mudança do curso de muitos eventos da história. Michel Quoist afirmou com propriedade: “O que a mulher é para o homem, na construção da família, deve ser para a sociedade, na construção do mundo”.

A Dama de Ferro é uma produção cinematográfica que conta a comovente história de Margaret Thatcher, uma mulher que quebrou as barreiras de gênero e classe para ser ouvida em um mundo dominado pelos homens. A história diz respeito ao preço que se paga pelo poder e é um retrato surpreendente e íntimo de uma mulher extraordinária e complexa. Thatcher foi, indiscutivelmente, uma grande líder, uma mulher firme e decidida, de predicados admiráveis.

Você já deve ter ouvido falar de Helen Keller. Essa notável mulher nasceu no Alabama, e se tornou uma prova viva de que deficiências sensoriais não impedem a obtenção do sucesso. Helen Keller ficou cega e surda desde tenra idade, devido possivelmente a doença chamada Escarlatina. Ela sentia as ondulações dos pássaros através dos cascos e galhos das árvores de algum parque por onde ela passeava.

Tornou-se uma célebre escritora, filósofa e conferencista, uma personagem famosa pelo extenso trabalho que desenvolveu em favor das pessoas portadoras de deficiências. A história de Helen Keller faz mais sentido por conta de outra mulher; Anne Sullivan. Essa mulher foi sua professora, companheira e protetora. A peça The Miracle Worker, conta a história do encontro delas. A peça acabou sendo filmada. O filme recebeu o nome de: O Milagre de Anne Sullivan.

Em 1904 graduou-se bacharel em filosofia pelo Radcliffe College, instituição que a agraciou com o prêmio Destaque a Aluno, no aniversário de cinqüenta anos de sua formatura. Falava francês, latim e alemão. Ao longo da vida foi agraciada com títulos e diplomas honorários de diversas instituições, como a universidade de Harvard e universidades da Escócia, Alemanha, Índia e África do Sul. Em 1952 foi nomeada Cavaleiro da Legião de Honra da França. Foi condecorada com a Ordem do Cruzeiro do Sul, no Brasil, com a do Tesouro Sagrado, no Japão, dentre outras. Foi membro honorário de várias sociedades científicas e organizações filantrópicas nos cinco continentes.

Em 1902 estreou na literatura publicando sua autobiografia A História da Minha Vida. Depois iniciou a carreira no jornalismo, escrevendo artigos no Ladies Home Journal. A partir de então não parou de escrever.

A história da humanidade está repleta de mulheres que ajudaram a mudar o curso da história. Ninguém pode duvidar do valor da mulher para o progresso da humanidade. Ainda mais se levarmos em consideração o quanto elas tiveram que lutar para se impor e conquistar o espaço que realmente pertencia a elas.

Nos limites da Igreja Presbiteriana há mulheres que escreveram sua história de forma extraordinária. Nesse dia em que homenageamos a Mulher queremos destacar Elizabeth W. Simonton Blackford, esposa do notável A. L. Blackford e irmã mais velha de A. G. Simonton nosso reverenciado Missionário.

Elizabeth nasceu no dia 4 de Setembro de 1822, estudou no Seminário Feminino de Newark, em Delaware. Tinha o apelido de Lille. Casou-se com Blackford em 08 de Março de 1860 e veio para o Brasil chegando aqui, com seu esposo, em 25 de Julho do mesmo ano. Elizabeth residiu por um período em São Paulo auxiliando seu esposo no início da obra presbiteriana na capital paulista.

Era uma mulher notável. No mês de Maio de 1861, Elizabeth e o esposo receberam a visita do ex-sacerdote católico, José Manoel da Conceição. Esse contato deixou profundas marcas no coração de J. Manoel da Conceição que escreveu a respeito de Elizabeth:

“Sua muito nobre senhora, Mme. Blackford, cuja alma é o santuário do Espírito de Deus, a primeira palavra que me dirigiu foi um convite para comungar em sua Igreja. A surpresa embaraçou-me por um momento....Três grandes nomes, que farão eternamente o objeto de minha gratidão, são inseparáveis da minha conversão e entrada na família cristã. Estes nomes são A. L. Blackford, sua muito nobre senhora e A.G. Simonton. Eis os dignos instrumentos de que quis Deus servir-se para me fazer cristão”.

A casa do casal Blackford, na antiga rua Nova de São José, a atual Líbero Badaró, foi o berço do presbiteriano paulista. Foi ali que se reuniu a Igreja por muitos anos; ali a filha de Simonton foi criada, após a morte de sua mãe; ali faleceu o pioneiro A. G. Simonton em 09 de Dezembro de 1867.

Foi após a morte de Simonton que o casal Blackford mudou-se para o Rio de Janeiro. Em 1870 a revista, The Foreign Missionary publicou um interessante relato a respeito da Escola Dominical e Lillie. Ela foi uma grande entusiasta da obra missionária no Brasil. Possuía uma mente ágil e observadora e tinha a facilidade de relacionar-se com todos os tipos de pessoas, usando essa habilidade com fins evangelísticos. Por conta de uma enfermidade da qual foi acometida no Brasil fez algumas viagens aos EUA. Na última dessas viagens, em 25 de Abril de 1878, Elizabeth levou consigo sua sobrinha Helen Simonton.

Elizabeth W. Simonton Blackford faleceu no dia 23 de Março de 1879, dando de sua vida, vinte anos na obra missionária no Brasil. Está sepultada ao lado de seu irmão e em seu túmulo encontramos a seguintes palavras de 2 Timóteo 1.12: “Eu sei em quem tenho crido”. Ao nos referirmos a essa notável mulher presbiteriana, homenageamos a todas as demais mulheres nesse Dia Internacional da Mulher.

Faço, portanto, minha homenagem a você mulher, e principalmente, a você mulher presbiteriana, nesse dia em que comemoramos o Dia Internacional da Mulher. Que Deus em sua infinita sabedoria, que a criou como uma auxiliadora idônea e tão capaz, continue a fortalecer cada uma de vocês de tal maneira que todas possam portar as virtudes da mulher citada em Provérbios 31. 10-31.

*Rev. Mauro Sergio Aiello é pastor na Igreja Presbiteriana de Mogi das Cruzes (SP).

 
Um leão está no caminho - a tentativa de racionalizar o pecado Imprimir E-mail

 

Por rev. Milton Jr.*


Quando a carta de Angélica pedindo exoneração da função que exercia na igreja chegou ao Conselho, as razões apresentadas pareciam plausíveis. Estava ficando difícil conciliar o emprego, o cuidado com a casa e os trabalhos finais da pós-graduação com o seu trabalho na igreja. Diante de tantos afazeres, o trabalho da igreja ficaria sempre em segundo plano e para fazer mal feito era melhor deixar para alguém que pudesse desempenhar melhor a função.

Diante daquilo que afirma o livro do profeta Jeremias, “maldito aquele que fizer a obra do Senhor relaxadamente” (Jr 48.10a), a atitude de deixar um cargo da igreja por entender que não será feito um bom trabalho e, por isso, Deus não será honrado, deveria ser vista como louvável. Porém, a história ainda não terminou.

Na visita pastoral a fim de acompanhar Angélica, que além de ter entregado o cargo também não estava frequentando a igreja, algumas constatações foram feitas.

Ela foi arguida sobre sua vida devocional e respondeu que não tinha tempo de ler as Escrituras. De fato, eram muitas as leituras requeridas no curso, mas nada que justificasse não separar ao menos 20 minutos diários para uma breve leitura bíblica. Era fácil perceber que a desculpa era fraca. Entretanto, um problema ainda mais grave viria à tona.

Como Angélica havia entregado o seu cargo e não estava frequentando a igreja, a conversa acabou também tomando essa direção e em determinado momento ela expressou: “Se eu continuasse no cargo iria fazer mal feito e as pessoas iriam me criticar. Eu não gosto de ser criticada!”.

Você consegue perceber o que está, de fato, em jogo aqui? Na explicação dada na carta enviada ao Conselho, a motivação parecia piedosa, porém, diante dessa última afirmação, percebe-se que aquela era apenas uma tentativa de justificar a verdadeira razão para o abandono da função: orgulho!

“Diz o preguiçoso: Um leão está lá fora; serei morto no meio das ruas”

(Pv 22.13)

O provérbio acima faz exatamente essa constatação. Para não admitir o seu pecado, a sua falta de vontade de fazer o que deve, o preguiçoso trata de arranjar uma desculpa. Seu problema não é a preguiça, seu problema é que se ele se propuser a fazer o que deve estará diante de um perigo iminente. É possível até ouvir em alto e bom som: “Vocês não estão vendo que tem um leão lá fora e que estou correndo perigo?”.

Infelizmente, essa atitude não é exclusiva de Angélica ou do preguiçoso do provérbio. De modo geral, o homem vive arranjando razões que “justifiquem” ou escondam o seu pecado. Convenhamos, é bem mais fácil buscar a causa em coisas externas ou em algo que foge ao nosso controle do que admitir a nossa culpa e irresponsabilidade.

Por isso, é tão comum se ouvir por aí: “Eu não sou guloso, meu problema é de metabolismo”; “É lógico que confio em Deus, a causa da minha ansiedade é química, preciso é de remédios”; “Eu não sou iracundo, tratei mal fulano porque ele não entende meus problemas”; “Não, eu não sou lascivo, mas sabe como é, né? Sou casado e minha esposa não supre as minhas necessidades”, etc., e, assim, são os leões e não a preguiça o alvo a ser tratado. Se eles não existissem, as atitudes seriam outras.

A questão é tão sutil que, ao criar o seu leão imaginário, o preguiçoso se dá por satisfeito e se rende à sua condição. Ninguém precisa acreditar na sua alegação, basta que ele saiba que o problema não é ele.

Confessando o pecado ao Leão de Judá

A Bíblia fala também de outro Leão, este, majestoso. Em Apocalipse João chama o Senhor Jesus de o Leão da Tribo de Judá. Ele é o Deus Todo-Poderoso, aquele que venceu a morte para nos dar uma nova vida. O Leão de Judá é aquele que tem poder para perdoar os pecados e tratar o nosso coração. Em vez de racionalizar os pecados, podemos e devemos confessá-los ao Senhor e receber dele o perdão (1Jo 1.9).

Enquanto o verdadeiro problema não for tratado, nunca haverá alegria e satisfação.

Voltemos então à Angélica. Ela ouviu e entendeu que estava arranjando desculpas e que o seu orgulho era o verdadeiro problema a ser enfrentado. O grande problema é que não basta entender o problema. Como já foi afirmado, é preciso confessar o pecado e, ainda mais, buscar forças no Senhor a fim de uma mudança efetiva.

Angélica não voltou mais à igreja, não quis a ajuda que lhe foi oferecida, mas espero no Senhor que passados tantos anos já tenha tratado o problema.

A sua história pode ser diferente. Se você tem tentado racionalizar o seu pecado e ao ler este texto se deu conta do caminho que está tomando, achegue-se confiadamente ao Leão de Judá, confesse a sua falta e rogue que o seu Espírito o ajude em sua caminhada cristã, de modo que honre o Senhor em todo momento.



Milton Jr.*

Igreja Presbiteriana da Praia do Canto

Fonte: www.aconselhandocombiblia.blogspot.com


 
O justo viverá pela fé Imprimir E-mail


Por rev. Samuel Gueiros Vitalino*


Habacuque sofreria muito se vivesse nos nossos dias. Suas súplicas a Deus por Justiça frente ao viver impiedoso do seu próprio povo deve nos fazer orar como ele orou, pedindo que Deus aja mesmo contra o seu povo, para que este possa acordar da letargia e fraqueza moral com que vive.

Por mais surpreendente que tenha sido, a resposta de Deus ao profeta dizendo que mandaria um povo ímpio para escarnecer do seu próprio povo parece também ter cumprimento nos nossos dias. Somos, como ‘evangélicos’ motivo de piadas e chacotas por causa dos falsos crentes e líderes que embaralham a mente do mundo e envergonham o evangelho.

Mas como devemos, os crentes, perceber todo esse engano que o falso cristianismo tem mostrado? Deus disse a Habacuque que escrevesse numa tábua de pedra (igualzinho aos 10 mandamentos) qual seria o centro da sua mensagem: O justo viverá pela fé.

Aprendendo a lição, o profeta declarou que se tudo na vida acabasse, a figueira não florescesse, a oliveira murchasse, os currais ficassem vazios, ainda assim ele se alegraria em Deus e na sua salvação.

Será que esse evangelho pode ser pregado como suficiente?

Se tudo o que der prazer ao leitor: família, emprego, estabilidade e o que mais você puder pensar for requerido de você hoje, você precisa entender que viver pela fé é, ainda nas piores circunstâncias poder dizer: ainda assim eu me alegro no Deus da minha salvação.

Parece diferente do que você vê na TV? Mas esse é o evangelho daquele que nos chamou assim: Quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.

Esse é um convite irrecusável!


*Rev. Samuel Vitalino é pastor na Igreja Presbiteriana de Brotas, Salvador (BA).

*Texto originalmente publicado em http://bibliacomisso.blogspot.com

 

 
A paixão do Messias Imprimir E-mail

 

Por rev. Valdeci da Silva Santos*

 

Em 2004 o filme A paixão de Cristo, do aclamado diretor Mel Gibson, estreou no Brasil. O filme retratava as últimas horas dos sofrimentos experimentados por Jesus em seu ministério terreno e, por essa razão,  o filme encerra com uma simples indicação da ressurreição de Cristo.

O filme despertou muita polêmica  e curiosidade por onde passou. Polêmicas à parte, há que se considerar que a reflexão sobre a intensidade dos sofrimentos do Messias é dever de cada cristão. O que se segue nas linhas abaixo é simplesmente um produto desse exercício.

Muitos são inclinados a pensar que as agonias finais do Messias são todo o sofrimento que ele experimentou na terra. Uma leitura mais acurada dos evangelhos, contudo, traz uma conclusão inescapável: toda a vida de Jesus foi uma vida de sofrimentos.

É verdade que o sofrimento iniciado na encarnação – a acomodação do divino às limitações humanas - chegou ao seu clímax nos momentos finais de sua vida, na passio magna. Talvez seja esta a razão pela qual a narrativa dos sofrimentos do Messias naquela última semana ocupa cerca de 25% dos registros dos evangelistas.

Em geral considera-se paixão de Cristo os sofrimentos iniciados no jardim do Getsêmani naquela quinta-feira, no final do mês judaico de nisan [abril] até a sua morte na cruz. A palavra Getsêmani traz uma curiosidade. Ela deriva de um termo hebraico que significa “prensa de óleo”. Alguém que esteja atento à história verá que não foi por coincidência que naquele jardim Jesus sentiu tamanha angústia em sua alma a ponto de transpirar gotas de sangue (Lc 22.44).

Esse fenômeno é conhecido como hematidrosis, podendo ocorrer em condições de extrema pressão emocional, quando pequenos capilares das glândulas sudoríparas se rompem e o sangue mistura-se ao suor.

A pressão emocional que estava sobre os ombros daquele que veio para receber o castigo pelo pecado humano já resultava em grande angústia para Jesus.

Além do mais, aquele foi um momento de sofrimento solitário, pois os discípulos que deveriam estar orando com ele foram tomados por pesado sono (Mc 14.32-42).

Ao cair da noite, Jesus foi levado à presença de Anás, o sogro do sumo sacerdote Caifás (Jo 18.12-24). Anás deveria estar na casa do seu genro, pois não há indicação de que ele tenha sido transportado dali para outro lugar. Por causa de uma resposta considerada desrespeitosa de Jesus ao sumo sacerdote, ele foi imediatamente esbofeteado por um dos guardas. Começava ali uma série de abusos físicos aos quais Jesus seria submetido nas próximas horas.

Estavam também presentes na casa de Caifás, os principais sacerdotes, escribas e anciãos. Dava-se assim início a um julgamento forjado e ilegal. Várias testemunhas apresentaram acusações contra Jesus, mas nenhum dos depoimentos foi coerente. Todavia, a própria lei mosaica exigia que a acusação contra alguém fosse apresentada por, no mínimo, duas testemunhas e que houvesse coerência em seus depoimentos (Dt 17.6 e 19.15).

Também, um réu nunca seria condenado horas antes do sábado, pois isso lhe impedia recorrer da decisão no dia de descanso. Havia muitas irregularidades naquele tribunal, mas mesmo assim Jesus foi acusado de blasfêmia e todos o consideraram réu de morte (Mc 14.53-65).

Sem o poder legal para matar Jesus, as autoridades judaicas o encaminharam ao pretório romano na manhã da sexta-feira. O julgamento romano de Jesus parece ter ocorrido em três cenas: foi primeiramente apresentado a Pilatos, depois encaminhado a Herodes e por fim devolvido a Pilatos (Lc 23.1-25).

Na primeira cena, tem-se Pilatos, governador romano da Palestina naquela ocasião. Após uma breve sessão interrogatória, Pilatos, sabendo que Jesus era Galileu, imediatamente o remeteu a Herodes. Na segunda cena Herodes recebe Jesus com alegria, pois o gesto de Pilatos demonstrava o seu reconhecimento da autoridade de Herodes sobre assuntos judaicos e o próprio Herodes há muito ansiava ver um milagre realizado por Jesus.

Contudo, diante do silêncio de Jesus, Herodes o desprezou e enviou-o de volta ao governador romano, em cuja presença ocorre a terceira cena. Seguindo um costume comum às vésperas da Páscoa, Pilatos ofereceu-se para libertar um dos prisioneiros à multidão judaica e deu-lhes a oportunidade de escolher entre Jesus e Barrabás, um terrorista e homicida (Mc 15.7).

A multidão, aos gritos, exigiu a libertação de Barrabás e a crucificação de Jesus. Em uma tentativa de remover sua culpa, Pilatos mandou trazer água e lavou as mãos. Jesus foi entregue aos soldados para ser açoitado em preparação para a crucificação.

Antes de entregar Jesus para a crucificação, Pilatos ordenou que ele fosse açoitado pelos soldados romanos. O açoitamento era uma pena preliminar em todas as execuções romanas. Normalmente o condenado tinha suas mãos atadas a um alto tronco e recebia treze chibatadas sobre a região das coxas, nádegas e costas, outras treze sobre o ombro esquerdo e mais treze sobre o ombro direito (isto explica a expressão paulina “uma quarentena menos um”, 2Co 11.24).

O instrumento daquele açoite era um pequeno chicote com vários fios na sua extremidade. Na ponta de cada fio eram colocados pequenos pedaços de osso ou metais cortantes. Cada chicotada poderia cortar a pele e arrancar pedaços, fazendo com que o sangue banhasse o corpo do Salvador.

O objetivo do açoitamento era enfraquecer a vítima através da perda de sangue ocorrida naqueles momentos de tortura. Somente as mulheres e os senadores estariam isentos da flagelação.

Depois de ter sido açoitado, Jesus foi levado ao pretório, onde os soldados escarneceram dele publicamente. Ali ele foi despido, coberto com um manto escarlate e coroado com uma coroa de espinhos, recebendo ainda um caniço como cetro. Diferente das gravuras religiosas, aquela coroa de espinhos não devia ter sido tão fina nem tão bem trabalhada no formato de um anel.

Os espinhos devem ter sido pontiagudos, cobrindo bem mais do que apenas a testa do Messias. Somente o ato de colocar aquela coroa causaria profunda dor, sem falar do sangue que jorraria pelo rosto do Salvador, uma vez que o couro cabeludo possui tantas veias e vasos sangüíneos.

Além do mais, cada golpe do caniço na cabeça de Jesus faziam com que os espinhos penetrassem mais profundamente. Dali Jesus foi levado para a sua crucificação.

Devido à angustiante dor da crucificação, os soldados ofereciam uma bebida analgésica à vítima. No caso de Jesus, eles ofereceram vinho com mirra (ou fel, como afirma Mateus). Jesus, porém, recusou. Ele teria de sorver conscientemente cada gota daquele cálice amargo. Na crucificação a vítima era colocada com os braços abertos e o corpo estendido na posição vertical.

Os cravos primeiramente entravam nas mãos ou punhos, rompendo nervos e músculos, resultando em mais dor e sangue derramado. Depois, a vítima tinha seus pés pregados no madeiro, normalmente um pé sendo colocado sobre o outro. A crucificação naquela posição não visava apenas a vergonha do condenado, mas também o processo de uma morte lenta e por asfixia.

Uma vez que as mãos e as pernas não suportariam o peso do corpo na cruz, os braços cederiam, fazendo com que a vítima se entregasse a uma posição “Y” ao invés de “T”. Com isso, a respiração seria paralisada e a pessoa morreria. Alguns teriam câimbras severas e, caso alguém permanecesse vivo por longo tempo, suas pernas seriam quebradas a fim de que não houvesse mais resistência e a pessoa não conseguisse mais respirar.

Na crucificação de Jesus, houve trevas sobre toda a terra a partir da hora sexta até a hora nona, ou seja, de 12:00 às 3:00 da tarde. Era como se Deus estivesse encobrindo do mundo aquilo que somente ele deveria tratar com o Representante dos redimidos. Ao final da hora nona, Jesus clamou em alta voz: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” Aquela parece ter sido a primeira vez, em todo o seu ministério, que Jesus não se dirigiu a Deus como Pai.

Seus órgãos internos deveriam estar falhando devido à falta de oxigênio e cada clamor era um esforço a mais para o seu corpo enfraquecido. Após clamar outra vez, ele entregou o espírito: entregou-se à morte!

Durante todas aquelas horas de profundo sofrimento Jesus permaneceu relativamente calado. Certamente é difícil articular palavras quando o corpo está sendo “prensado” sob tão intensa dor, mas o silêncio de Jesus também cumpria a profecia bíblica de que o Messias seria levado como ovelha muda perante os seus tosquiadores (Is 53.7). Tamanho silêncio, porém, desperta a curiosidade sobre o que se passava na mente de Jesus naqueles instantes. Em que pensava ele?

Primeiramente, pode-se dizer que em seus momentos de angustiante sofrimento Jesus pensava nos outros antes que em si mesmo. Em sua caminhada rumo ao Calvário ele volta-se para algumas mulheres que choraram e diz: “Não choreis por mim; chorai, antes, por vós mesmas e por vossos filhos!” (Lc 23.28). Já na cruz, após sua carne ter sido dilacerada pelos cravos, e diante dos olhares daqueles que assistiam ao “espetáculo”, Jesus intercedeu: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23.34).

Pouco mais adiante ele respondeu ao malfeitor arrependido que estava crucificado ao lado dele: “ . . . hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23.43). Por fim, o evangelista João registra que Jesus ainda teve tempo de providenciar alguém para cuidar de sua mãe, pois da cruz ele dirigiu-se ao discípulo amado dizendo: “Eis aí tua mãe” (Jo 19.26-27). Conclui-se dessa forma que mesmo em seus últimos momentos Jesus pensava nos outros.

Em segundo lugar, pode-se também dizer que em seus últimos momentos Jesus pensava nas palavras das Escrituras Sagradas. Em sua angústia na cruz ele clamou: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46).

Aquelas palavras eram uma citação do Salmo da Cruz (Sl 22.1). Também, João registra o zelo de Jesus em cumprir as Escrituras ao pedir algo para beber (Jo 19.28-30). Aquele pedido era um cumprimento de outro salmo messiânico: Salmo 69.21. Nota-se, com isso, que Jesus repassava algumas passagens das Escrituras em sua mente com o objetivo de cumpri-las todas. Em meio à sua intensa dor ele meditava nas Escrituras.

A reconstituição das últimas horas de sofrimento de Jesus apresenta certas dificuldades para a mente do homem contemporâneo, acostumada às imagens artísticas e românticas sobre Cristo na cruz. Embora rodeado por intensa violência, esse homem contemporâneo não concebe a violência que Jesus sofreu na realização de sua obra redentora.

Essa reflexão, porém, é fundamental para que o leitor bíblico atente para as terríveis conseqüências da sua culpa e a maravilhosa graça de Deus. Mesmo sendo Deus, Jesus suportou extraordinária dor. Mesmo sendo inocente ele não foi poupado. Surge então a questão: Por que Jesus teve que sofrer tanto? Em resposta a essa pergunta temos as razões dos homens e o propósito de Deus.

Os homens apresentaram suas razões nos tribunais que julgaram Jesus. Deus revelou o seu propósito nas páginas das Escrituras, pois através do dilaceramento de sua carne na cruz, Jesus abriu um novo e vivo caminho rumo a Deus (Hb 10.20). A cruz objetivou a abertura do céu para aqueles que crêem, pois aquela morte os substituiu. Somente por meio de Jesus Cristo temos paz com Deus (Rm 5.1).

 

*Rev. Valdeci é ministro presbiteriano na Igreja Evangélica Suíça de São Paulo. Tem publicado vários artigos e é co-editor da revista Fides Reformata.

 
Qual deve ser a posição de escolas evangélicas sobre a Páscoa? Imprimir E-mail

 

Por presb. Solano Portela*

 

Na Páscoa, procuramos relembrar o sacrifício de Jesus Cristo na Cruz do Calvário e a sua gloriosa ressurreição, vencendo a morte e assegurando a salvação para o seu povo.

A páscoa, é, na realidade, um feriado judaico e não cristão. No entanto, a ocasião está intimamente ligada à celebração da Santa Ceia e nos remete à morte e ressurreição de Cristo e às promessas de sua segunda vinda. Assim, a Páscoa tem feito parte de calendários cristãos de um grande segmento do povo de Deus, inclusive de reformadores, como Calvino.

Em Genebra os magistrados determinaram que a Ceia fosse celebrada no Natal, na Páscoa, no Pentecostes e na Festa das Colheitas [Vd. John Calvin, “To the Seigneurs of Berne”, John Calvin Collection, [CD-ROM], (Albany, OR: Ages Software, 1998), nº 395, p. 163. Vd. também: William D. Maxwell, El Culto Cristiano: sua evolución y sus formas, p. 141].

Menção à Páscoa é também feita em outros documentos reformados como no Catecismo de Heidelberg (Pergunta 45) e na decisão do Sínodo de Dordt (1578), onde lemos: “... considerando que outros dias festivos são observados pela autoridade do governo, como o Natal e o dia seguinte, o dia seguinte à Páscoa, e o dia seguinte ao de Pentecostes, e, em alguns lugares, o Dia de Ano Novo e o Dia da Ascensão, os ministros deverão empregar toda a diligência para prepararem sermões nos quais eles, especificamente, ensinarão a congregação as questões relacionadas com o nascimento e ressurreição de Cristo, o envio do Espírito Santo, e outros artigos de fé direcionados a impedir a ociosidade”.

Além disso, a celebração da Páscoa fornece aos evangélicos um “gancho” e oportunidades para a veiculação da mensagem cristã, mencionando a morte e a ressurreição de Cristo, em ações de evangelização.

O que dizer de diferentes símbolos, guloseimas e celebrações seculares que são comuns, nessa época? Deve uma escola cristã emitir ou ter um posicionamento fechado quanto a esses detalhes? Uma escola cristã deve prezar a sua confessionalidade, considerando-a básica para a formação da sua filosofia educacional e da cosmovisão pela qual o mundo e as realidades espirituais são compreendidas, sempre firmada na revelação especial – a Palavra de Deus.

Nesse sentido, a escola cristã deve procurar se divorciar do apoio aos apelos consumistas (nessas e em outras datas) e de simbologias que podem ser aberrantes, ainda que tradicionais. No entanto, a escola cristã não desconhece que abriga crianças e famílias de todas as culturas e credos.

Assim, não pode firmar frente cerrada contra a orientação das famílias, às quais cabe a compreensão e a tomada de decisão própria da persuasão que estarão transmitindo aos seus filhos.

A escola cristã, também, não procura avançar na esfera da igreja, à qual cabe a instrução doutrinária detalhada àqueles que estão ligados a ela de forma voluntária e por convicção de uma fé comum, ainda que, em suas celebrações religiosas possa e deva fazer referência, sem apologias, ao trabalho redentor de Cristo Jesus.

Resumindo, a escola cristã necessita educar os seus alunos em todos os aspectos da cultura, sem rendição a interpretações e ideologias que contrariam os valores e princípios cristãos, mas sem assumir a obrigação, como instituição, do convencimento religioso.

Esse convencimento, ou conversão, é almejada e administradores e professores cristãos devem, legitimamente, estar em oração e súplicas, pedindo a Deus que ele utilize o testemunho de vidas, a excelência acadêmica, a fidelidade aos fatos da história e a precisa exposição do universo na realização de sua obra de chamamento pessoal.

*Presb. Solano Portela é escritor e membro da Igreja Presbiteriana de Santo Amaro.

 
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