Os Benefícios Espirituais dos Salmos


A coletânea que forma o Livro dos Salmos talvez seja a mais lida de toda a Bíblia. O povo de Deus ama o conteúdo dessa porção das Escrituras e o seu estudo pode resultar em vários benefícios espirituais para o crente. Antes, porém, de mencionar alguns desses proveitos, são necessárias algumas orientações técnicas para o leitor dos salmos.

Em primeiro lugar, a palavra salmos provém de um termo grego que significa “hinos” ou “cânticos”. A palavra hebraica para o título dessa coletânea significa “louvores”. Ou seja, o livro de Salmos é um livro de orações e cânticos do povo de Deus no Antigo Testamento e que foi grandemente usado na igreja cristã do Novo Testamento (cf. Ef 5.19 e 3.16) e através dos séculos. Na verdade, os salmos têm contribuído com versículos, frases e palavras para inúmeros hinos e cânticos cristãos contemporâneos.

Em segundo lugar, é preciso observar que o Livro dos Salmos está organizado em cinco divisões básicas (cf. 1-41, 42-72, 73-89, 90-106 e 107-150). Os últimos versículos de cada sessão contêm uma expressão de louvor a Deus e o salmo 150 parece concluir todo o “hinário bíblico” com uma doxologia final. Muitos salmos possuem títulos com referências históricas de quando foram compostos, mas outros não possuem nenhuma informação panorâmica.

Em terceiro lugar, é necessário notar que alguns Salmos possuem identificações de seus autores, mas outros permanecem anônimos. Por exemplo, é possível saber que Moisés compôs o Salmo 90, que Davi escreveu inúmeros salmos, que Salomão é o autor do Salmo 127, que Asafe compôs outros tantos (Sl 73, 78, 80-83 etc.) e que os levitas “filhos de Coré” também deixaram sua contribuição (cf. Sl 42, 44, 45, 46 etc.). No entanto, o fato de existirem vários salmos anônimos indicam que o conteúdo dessas orações e cânticos é mais importantes do que o conhecimento dos seus autores.

Finalmente, é mister atentar ao fato de que os salmos são proeminentes nos escritos do Novo Testamento. Na verdade, o Livro dos Salmos é um dos dois livros do Antigo Testamento mais citado no Novo Testamento, sendo que o outro é o livro do profeta Isaías. Por exemplo, Jesus citou o Salmo 110 em sua discussão com os fariseus acerca de sua divindade (cf. Mt 22.43-44) e na cruz ele orou as palavras do Salmo 22 (cf. Mt 27.46). É possível afirmar que o Salvador olhava para si como o cumprimento dos salmos messiânicos. Mas tanto nas pregações dos apóstolos como em seus escritos, o Livro dos Salmos foi continuamente citado (cf. At 2.24-36 e 13.29-39). A carta aos Hebreus é o livro no Novo Testamento que mais cita os salmos.

A realidade é que os Salmos continuam sendo um tesouro de auxílio espiritual para o povo de Deus ao longo dos séculos. Logo, quais seriam os benefícios espirituais do estudo do Livro dos Salmos? Abaixo seguem algumas três sugestões que espero poder motivá-lo a meditar diariamente nessa porção das Escrituras.

  1. Os salmos nos ensinam a falar com Deus. Muitos crentes não sabem ao certo como orar, como se dirigirem a Deus, como “derramar o coração e alma” diante do Senhor. Será que poderíamos dizer a Deus quais são os nossos temores mais íntimos? Poderíamos falar para ele que não entendemos os Seus planos para conosco? Poderíamos revelar os nossos desejos pessoais? Ou, quem sabe, será que poderíamos contar a ele sobre nossa frustração com a demora dele em agir e intervir nesse mundo? Pois bem, os salmos revelam como os servos de Deus oraram e se comunicaram com o Senhor e ele recebeu a expressão devota dos seus filhos, mesmo quando essa expressão não parecia ser muito “reverente”. O que dizer das seguintes orações: “Por que, Senhor, te conservas longe? E te escondes nas horas da tribulação?” (Sl 10.1) ou, “Até quando, Senhor? Esquecer-te-ás de mim para sempre? Até quando ocultarás de mim o rosto?” (Sl 13.1). Mas há também expressões de amor e dependência: “Eu te amo, ó Senhor, força minha” (Sl 18.1) e “Guarda-me, ó Deus, porque em ti me refugio” (Sl 16.1). Os exemplos são muitos, mas é preciso saber que essas palavras fazem parte do relacionamento do crente com o seu Deus e que elas nos ensinam a expressar nossas emoções diante daquele que já conhece a palavra antes que ela saia dos nossos lábios (Sl 139.4).
  2. Os salmos nos ensinam quão gracioso e bondoso é nosso Pai celeste. O próprio fato de podemos ser sinceros com Deus e ele não nos rejeitar, já é suficiente para demonstrar sua bondade com os seus filhos. Todavia, os salmos geralmente revelam a experiência do salmista quanto a intervenção de Deus acudindo nos momentos críticos da vida. Davi, por exemplo, exalta a graça de Deus ao registar palavras como: “Na minha angústia, invoquei o Senhor, gritei por socorro ao meu Deus. Ele do seu templo ouviu a minha voz e o seu clamor lhe penetrou os ouvidos” (Sl 18.6). Por isso, outro salmo diz: “Bendito seja Deus, que não me rejeita oração, nem aparta de mim a sua graça” (Sl 66.20), e alguém mais cantou: “Amo o SENHOR, porque ele ouve a minha voz e as minhas súplicas. Porque inclinou para mim os seus ouvidos, invocá-lo-ei enquanto eu viver” (Sl 116.1-2). Dessa e de outras maneiras os salmos evidenciam a graciosa bondade do Pai celeste com os seus filhos.
  3. Os salmos nos ensinam a lidar com as angústias terrenas. Todos nós sabemos e o próprio Jesus afirmou que “há aflições no mundo” (Jo 16.33). Lidar com essas aflições e angústias é algo que exige contínua sabedoria do crente. Pois os salmos revelam como os servos de Deus, no passado, lidaram com situações semelhantes àquelas que nos acometem na vida diária. Eles viveram em contextos onde a injustiça prevalecia, a imoralidade crescia e a violência assolava. Em outras palavras, os tempos mudaram, mas o mundo permanece o mesmo. A solução que os salmistas encontraram pode ser resumida nas palavras: orar, confiar e esperar no Senhor e em sua Palavra. Senão vejamos: “Socorro, Senhor! Porque já não há homens piedosos; desaparecem os fiéis” (Sl 12.1), “Guia-me na tua verdade e ensina-me, pois tu és o Deus da minha salvação, em quem eu espero todo o dia” (Sl 25.5), “Espero, Senhor, na tua salvação e cumpro os teus mandamentos” (Sl 119.166), “Aguardo o Senhor, a minha alma o aguarda; eu espero na sua palavra” (Sl 130.5), “Dá-te pressa, Senhor, em responder-me; o espírito me desfalece (Sl 143.7). Exemplos como esses deveriam nos motivar a seguir o mesmo caminho dos crentes fieis do passado na maneira como lidaram com suas aflições terrenas.
  4. Os salmos nos direcionam a Jesus. O reformador Martinho Lutero costumava dizer que os Salmos são “a Bíblia em miniatura”, pois eles não contêm apenas aspectos dos mandamentos, mas também profecias sobre o Redentor. Além do mais, o próprio Jesus afirmou que sua vida foi o cumprimento de tudo o que a seu respeito estava “escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lc 24.44). Por isso, o estudo dos salmos direciona a pessoa à Jesus e a torna sábia para a salvação (2Tm 3.15). Neles o leitor poderá aprender sobre o reinado do Ungido de Deus (Sl 2), sobre as angústias do Salvador na cruz (Sl 22), sobre o caráter do Bom Pastor (Sl 23), sobre o relacionamento de Cristo com a igreja (Sl 45), sobre a divindade de Cristo (Sl 110) e tantas outras coisas sobre o Redentor.

Concluindo, tome a sua Bíblia, dedique um tempo apropriado e se deleite com a leitura e o estudo do Livro dos Salmos. Os maiores beneficiados nesse projeto serão você, sua família e sua igreja.