O QUE OS FILHOS DE PASTORES PRECISAM?


O QUE OS FILHOS DE PASTORES PRECISAM?

O exercício correto do ministério pastoral é exigente e repleto de obrigações que, geralmente, se apresentam de maneira urgente. Por essa razão, é comum que a família do pastor enfrente alguns desafios em relação a ausência do marido e pai, as frequentes interrupções das atividades familiares por algum membro da igreja em necessidade e até o isolamento do pastor em função das preparações de mensagens e estudos. O fato é que, tanto a esposa quanto os filhos do pastor, acabam pagando um preço mais alto do que eles gostariam, quando a vida familiar é considerada!

No entanto, não seria correto colocar a culpa dessa tensão somente sobre as exigências do ministério e as necessidades dos membros da igreja. Há que se considerar também que alguns pastores acabam fazendo escolhas pobres em relação ao uso do tempo e das prioridades na vida ministerial. Esse é um assunto muito complexo, pois algumas pessoas, de fato, estão ocupadas, mas há aquelas que gostam de “parecer ocupadas” à fim de se sentirem necessárias! No caso do ministério, há aqueles que se afadigam por coisas além de sua esfera, tanto local, quanto denominacional e até espiritual (síndrome de Deus). Mas a verdade é que, a despeito das razões e explicações, a família do pastor acabará sofrendo em determinado momento por sua ausência!

No caso da esposa do pastor, devido a uma melhor compreensão do ministério, a sua maturidade espiritual aos seus muitos compromissos e até mesmo ao sacrifício pessoal, essa tensão é geralmente diminuída. Todavia, o que dizer dos filhos de pastores? Como explicar que a festa de aniversário não foi realmente uma celebração, mas se tornou uma reunião departamental da igreja? Como justificar que o pai ainda não conseguiu assistir aquela apresentação na escola para qual eles tanto se prepararam? Como fazê-los compreender que, muitas vezes, somente as sobras da agenda do pai se destinam a eles? Como convencê-los de que outras pessoas parecem ter sempre a prioridade?

Recentemente, algumas dessas dificuldades dos filhos de pastores foram listadas e muito bem expressas por Barnabas Piper, um dos filhos mais jovens de John Piper, no livro The Pastor’s Kid: Finding Your Own Faith and Identity [O filho do pastor: Encontrando sua própria fé e identidade] [1]. A obra de Barnabas é instrutiva e desafiadora, especialmente para os pais, pois nela “abre o coração” sobre o que gostaria que o seu próprio pai, assim como outros pastores, soubesse em relação aos dramas vivenciados por seus filhos. O próprio John Piper, que prefacia o livro, admite ter sido doloroso ler o livro escrito por seu filho. Todavia, a obra não consiste apenas de lamentos ou murmurações, mas de reflexões graciosas de alguém que foi encontrado por Deus e passou a ter deleite na comunhão com Ele durante o ministério de seu pai.

Correndo o risco de reduzir a contribuição do livro de Barnabas a uns poucos princípios, ofereço abaixo uma adaptação daquilo que esse filho de ministro acredita serem as principais necessidades dos filhos de pastores. É preciso deixar claro que parte desse resumo havia sido rascunhado pelo próprio Barnabas antes da publicação do seu livro. [2] O intento, naquela ocasião, foi apresentar sete coisas que um pastor pode fazer por seu filho à fim de ser um melhor pai e procurar atingir uma necessidade real dos filhos em meio as demandas ministeriais.

 

1. Um pai, não um pastor

Certamente os filhos do pastor compreenderão o seu chamado para pastorear tanto a igreja, quanto a sua própria família, mas o que de fato eles querem é um pai, alguém que brinca com eles, os protege, os faz rir, expressa seu amor pela mãe deles, distribui abraços, presta atenção, ensina-lhes a andar de bicicleta e visita a “casa de boneca” das filhas. Em outras palavras, eles querem alguém que viva a vida comum do lar!

De fato, chega a ser uma hipocrisia de nós pastores, exortar os membros da congregação a uma vida de amor, sacrifício e dedicação familiar, enquanto negligenciamos a própria família! Em nossa lista de prioridades, o tempo dedicado aos filhos não deveria ser categorizado como “resto”.

 

2. Conversa, não sermões

Todo pastor é altamente treinado a comunicar por meio de sermões. Os sermões são uma maneira eficaz de anunciar a verdade bíblica a uma congregação ou grupo de pessoas, mas não aos filhos (ou esposa). A própria estrutura dos sermões consiste de monólogos, declarações sentenciais de verdades, não negociáveis! O formato sermonal não convida ao diálogo, mas aponta o que precisa ser mudado ou corrigido.

Por isso pastores, conversem com seus filhos sobre a Bíblia de uma maneira interessante, aplicável e dialogal. Ajude-os a ver a aplicação das Escrituras como uma parte normal da vida. Ao invés de concentrarem apenas no ensino de lições, permeie suas conversas com cosmovisão bíblica sobre artes, esportes, finanças e outros, para ajudar seus filhos a olharem para a vida sob a ótica do Evangelho. Dessa maneira eles entenderão que também podem interagir biblicamente com o mundo ao redor, mas os sermões sentenciais poderão ter o efeito nocivo de fazê-los se sentirem sempre errados nessa tarefa.

 

3. Seu interesse em seus hobbies

As demandas pastorais são, de fato sérias. Em um momento o ministro está aconselhando um casal à beira da separação, em outro, tentando ajudar uma família devastada pelo uso de drogas por parte da filha e, ainda há aquelas reuniões de planejamento, conferências, assembleias, presbitérios, sínodos etc. No dia a dia, o pastor muitas vezes se vê atarefado estudando Calvino, John Owen, Berkhof ou outro teólogo, procurando defender a fé bíblica e confrontando as heresias contemporâneas. Tudo isso é questão de vida ou morte em seu ministério.

Todavia, em casa, sua filha está brincando de bonecas e ouvindo músicas de Lady Gaga e tudo que seu filho queria seria jogar uma partida de FIFA no Xbox com o pai. A verdade é que o fato dos hobbies de seus filhos serem menos interessantes para você não os torna menos importantes para seus filhos. Nesse sentido, seria prudente se interessar pela maneira como seus filhos passam o tempo, especialmente porque como pai você deveria estar interessado por seus filhos.

 

4. Serem estudados

No ministério geralmente estudamos ideias, textos e gramáticas de algumas línguas mortas. Mas o pastor sábio também estuda pessoas e procura discernir os propósitos do coração humano (Pv 20.5). Em nenhum outro contexto esse exercício é mais desafiador e necessário do que o ambiente doméstico, especialmente em relação aos filhos.

Por isso pastores, estudem seus filhos de maneira tão dedicada como você estudou seus léxicos para a exegese no seminário, dediquem tempo a eles de maneira tão intensa como você dedicou ao estudo das matérias nas quais obteve as melhores notas. Afinal de contas, eles são certamente mais importantes do que seus diplomas. Procure saber quais são seus interesses, suas lutas diárias, suas insatisfações e suas dificuldades de se encontrarem em meio ao seu ministério. Aprenda a ouvir, pois nem sempre eles querem respostas, mas apenas a reação que demonstra o quando você se importa com eles. Lembre-se que mesmo fazendo isso você não terá nenhuma garantia de que eles não o tratarão como um idiota ou lhe chamarão “estúpido” ocasionalmente. Todavia, você será um idiota disposto a compreender a idiotice individual de seus filhos.

 

5. Sua consistência

Ninguém pode detectar hipocrisia no pastor mais rápido do que sua esposa e seus filhos. Se você se apresenta como o bondoso pastor no domingo, mas em casa é o verdadeiro dominador e déspota, seus filhos assentados no banco da igreja não reagirão positivamente ao sermão. Por outro lado, se ao pregar sobre graça, perdão e confissão você já tiver praticado essas grandes verdades em casa, haverá mais chance de que eles recebem a mensagem com alegria.

Uma coisa que qualquer pastor precisa aprender é que as pessoas ao redor não toleram nossas incoerências, mesmo quando elas estão sendo incoerentes em suas próprias vidas. Isso não ocorre apenas com os membros da congregação local, mas também se faz presente na família do pastor. Dessa forma, o evangelho proclamado deve ser diariamente encarnado nos relacionamentos domésticos.

 

6. Graça nas ocasiões que falharem

Normalmente os pastores falam muito acerca da graça que triunfa sobre nossas fraquezas. A salvação é pela graça e o viver cristão só é possível pela graciosa provisão do Senhor. No entanto, esse discurso comum não é garantia alguma de que eles agem graciosamente em relação às fraquezas das pessoas ao redor, especialmente seus filhos.

Todos nós ainda pecamos nesse mundo caído e nossos filhos não são exceção. Às vezes nós pastores, nos ressentimos quando a igreja coloca um fardo irreal de perfeição sobre nossos filhos, mas de alguma maneira, colaboramos com esse erro ao não demonstrar graça a eles quando eles falham. Nesse sentido, assim como o Pai celestial é misericordioso e longânimo ainda que não inocenta o culpado (Ex 34.6-7), cada pastor possui o chamado para espelhar a paternidade divina aos seus filhos.

 

7. Firmeza na correção

Se por um lado o filho necessita de graça quando falha, por outro, necessita de firmeza na correção. Para tanto é necessária prudência a fim de não se aplicar uma dose maior nem menor do que o necessário. A diferença entre a droga e o remédio, muitas vezes se encontra na dosagem e na maneira da aplicação da substância. Há pais que acabam confundindo firmeza com dureza e impõem sobre os filhos um castigo maior pela transgressão cometida. Outros, acabam aliviando a pena a ponto de ela não trazer correção alguma. Tanto um quanto outro acabam prejudicando ao invés de contribuir para a restauração do pecador.

Quando um pai deixa de aplicar a correção ou repreensão devida aos filhos simplesmente por medo de magoar ou perder o amor filial, lamentavelmente ele já terá perdido grande parte do que temia perder. Ainda que o remédio da confrontação seja amargo a ambos, pais e filhos, o mesmo é necessário e precisa ser aplicado. Nesse sentido, firmeza é uma expressão de amor e não de crueldade.

Finalmente, os filhos de pastores precisam que seus pais sejam pais! Frágeis, falhos, humanos, crentes e amorosos pais. O problema é que aquilo que deveria parecer simples, pode ser mais difícil para alguns pastores do que se imagina e necessita enorme esforço. Todavia, tanto filhos quanto pais, serão beneficiados nesse empreendimento.

 

Rev. Valdeci da Silva Santos
Secretário Nacional de Apoio Pastoral - IPB