ERROS RELACIONAIS COMUMENTE COMETIDOS POR PASTORES - PARTE 2


ERROS RELACIONAIS COMUMENTE COMETIDOS POR PASTORES – PARTE 2

Na semana passada apontamos três erros relacionais geralmente cometidos por pastores sem que os mesmos percebam. Essa semana continuamos discorrendo sobre esses erros, acrescentando outros itens à nossa lista. São eles:

4. Manter-se apegado emocionalmente à sua igreja anterior. Assim como não é agradável para o pastor ouvir os membros de sua congregação tecerem contínuas comparações entre sua pessoa e o pastor predecessor, também é extremamente indelicado para os membros da igreja ouvirem seu pastor elogiar somente a igreja anterior. A mensagem transmitida nessas ocasiões é que ele não gostaria de estar ali e que aquelas pessoas não são quem ele gostaria de pastorear.

Experiências agradáveis no ministério devem ser entesouradas na memória do pastor e de sua família. Isso não significa, porém, que eles devam sempre fazer propaganda das igrejas por onde passaram e se esquecerem de expressar sua alegria pelo novo rebanho receberam de Deus. O pastor sábio procurará conhecer suas novas ovelhas e procurará conhecer a dinâmica da nova igreja. Além do mais, ele procurará discernir os pontos positivos de sua nova realidade e comunicará isso ao seu rebanho.

5.Não conseguir receber críticas e processá-las corretamente. Ninguém gosta de ser criticado, censurado, diminuído ou ter seus defeitos apontados. Porém, a crítica é inevitável e, portanto, devemos esperá-la, examiná-la e processá-la. As melhores censuras vêm daqueles que nos amam, pois “melhor é a repreensão franca do que o amor encoberto. Leais são as feridas feitas pelo que ama, porém os beijos de quem odeia são enganosos” (Pv 27.5-6). Logo, a primeira coisa a fazer ao receber uma crítica é perguntar pela intenção do seu autor. Se a boca fala do que está cheio o coração, a crítica não revela apenas os erros do criticado, mas também os sentimentos e os valores do crítico. Ela evidencia se o censor é amigo amoroso ou adversário avassalador. Discernir o propósito da crítica é fundamental para processá-la corretamente.

Outra maneira de processar a crítica é lembrar que se Cristo foi injustamente criticado e zombado, não seria nenhuma surpresa que algo semelhante acontecesse aos seus servos. Além do mais, Romanos 8.28-29 ensina que Deus usa todas as circunstâncias para refinar o crente e conformá-lo à imagem de Cristo, até a censura. Portanto, a crítica, ainda que injusta, pode ser usada por Deus para apontar algo que necessita ser mudado à fim de parecermos mais com o Redentor.

6. Usar a ira como instrumento de expressar seu zelo pastoral. De fato, nem sempre é fácil manter o domínio próprio diante dos desafios do ministério. A insistência de irmãos na prática do erro que já foi abordado, o surgimento de falsos mestres difundindo heresias entre as ovelhas, a inércia e apatia de muitos em desenvolver sua salvação e tantas outras coisas, desafiam a paciência de qualquer líder eclesiástico zeloso. Em um sentido, a ira em algumas dessas ocasiões é até justificada, pois o Senhor Jesus reagiu com tal zelo pela casa de Deus que expulsou aqueles que contaminavam o templo com suas negociatas (cf. Jo 2.15-16). Mas o ministério de Cristo não foi caracterizado pelas explosões iracundas.

É possível que alguns no ministério acabem confundindo ira com zelo santo e, por causa disso, desejam invocar “fogo do céu” para consumir os opositores (cf. Lc 9.54). Mas provavelmente, esses serão repreendidos pela palavra do Senhor que diz: “vós não sabeis de que espírito sois” (Lc 9.55). Dessa maneira, diante da tentação de explodir em raiva em algumas ocasiões do ministério, o pastor deve sempre considerar se sua ira é razoável (cf. Jn 4.4). Além do mais, devemos sempre lembrar que prestaremos contas de como tratamos nossas ovelhas ao Supremo Pastor que nos confiou o rebanho (cf. 1Pe 5.1-4).

 

7.Se esquecer de onde, de fato, reside sua identidade. Uma das maiores bênçãos do Evangelho da graça está no fato de que a identidade do cristão reside em Cristo. Ou seja, o que deveria ser mais importante para o crente é como Deus o vê em Cristo, coberto com a justiça do Redentor, aceito pelos méritos do Salvador e co-herdeiro com o Senhor. No entanto, nessa terra, facilmente nos esquecemos disso e depositamos nossa identidade naquilo que as pessoas pensam de nós ou em nossas próprias realizações. Nesse contexto, o trabalho excessivo, a busca pelo estrelato midiático, o desejo de agradar (ou não desagradar) pessoas, se tornam tentativas de mantermos nossa identidade em segurança.

O problema, porém, é que todas as vezes que fundamentamos nossa identidade em elementos tão vulneráveis como a opinião de pessoas ou nossos próprios feitos, dificilmente estaremos seguros. Assim como acontece com um ioiô pendurado no dedo do seu possuidor, nossa identidade experimentará altos e baixos dependendo de onde a “amarramos”. Portanto, não se esquecer que o fundamento da identidade do crente se encontra na aprovação de Deus em Cristo é essencial para o ministro do evangelho continuamente avaliado pelas pessoas ao seu redor.

8.Deixar de cuidar de si mesmo e pastorear sua família. Há vários textos nas Escrituras recomendando que líderes eclesiásticos cuidem de si mesmos (cf. At 20.28 e 1Tm 4.16). No entanto, devido à natureza do ministério, esses mesmos líderes se entregam para servir outros e se esquecendo do cuidado próprio. Não é incomum encontrar pastores cansados, emocionalmente fatigados, com dificuldades para dormir, acima do peso e com vários problemas de saúde. Além do mais, é comum encontrar pregadores que leem a Bíblica para seus sermões ou para ensinar outros, mas infelizmente já abandonaram a prática de leitura devocional, para alimentar sua própria alma.

Semelhantemente, enquanto correm para cuidar da igreja, muitos pastores chegam a deixar suas famílias em segundo plano. Nesse contexto, o culto doméstico se torna uma raridade na família pastoral, os filhos passam a receber sermões do pai ao invés de terem diálogos construtivos e a esposa do pastor se consome em meios às pressões domésticas e expectativas eclesiástica. Ao final, parece que todos os membros da igreja recebem pastoreio, menos a família do pastor. O pior de tudo, é que ao final, alguns cristãos ainda poderão censurar a situação doméstica da família pastoral.

Concluindo, há muitos e variados erros que o obreiro local pode cometer em seu relacionamento com a congregação. Por isso, o final do relacionamento ministerial não pode ser tributado somente aos membros da igreja local. Algumas das falhas do pastor podem parecer imperceptíveis, mas possuem efeito cumulativo. Dessa maneira, é importante que o ministro reflita sobre sua própria responsabilidade em prol de um relacionamento saudável com o seu rebanho.

Valdeci Santos