"AVANTE, PAPAI GUERREIRO DO SENHOR"...


SER PAI

Dedicado à melhor referência masculina e paternal que eu poderia almejar ao longo da minha existência terrena: meu amado pai, Francisco de Abreu.

Esse causo, eu não tenho receio ou rodeio em contar... é a minha história, sem tirar nem por!

O nascimento de minha primeira filha foi das coisas mais loucas desse mundo, eis que duplamente fecundo: aconteceram dois partos em um só!

Gêmeos? Nada disso... mas é fácil de entender! No exato instante em que minha pequena saía da barriga de sua genitora, 09 anos atrás, ali nascia também um pai.

Que me perdoem os componentes do meu gênero. Testosterona à parte, nós, os papais, sempre chegamos, e assim nos tornamos, bem depois das mamães...

Aff... parece até que as mães foram programadas, e já estão preparadas, e basta a primeira mamada para se escancarar o que estava claro e evidente: ser mamãe é inerente! E logo logo a cria, que instantes atrás era pura agonia, se achega e se esbalda, num conto de fraldas, que tem sempre um final feliz, no seio e no colo do (de)leite maternal...

Quanto a nós – ainda mal refeitos do espetáculo do parto que apenas assistimos (e filmamos, e sorrimos!) – daquele momento em diante começa um longo e vacilante processo, até um dia entendermos realmente o valor e o sentido em “ser pai”.

"Por quantos segundos se esquenta a papinha? Me ajuda aqui no chuveiro! Banheiro, outra vez? Faltou leite em pó... corre lá no mercado! O que é que tá esperando? Não ouviu o menino chorando? Eu só queria assistir futebol em paz... será que posso? Quem foi que inventou esse troço?"

Parecia que nunca chegaria...

Mas um dia – o que não planejamos, e tão menos esperamos – quando as sensações e tensões pareciam somente peças avulsas e dispersas, o grande quebra-cabeça começa a aparecer...

E então, simplesmente entendemos...

Que nós não carregamos os filhos no ventre por meses; mas eles já estavam em nosso coração, e dali nunca saírão...

Que enquanto eles se formavam, e a barriga da mamãe crescia; também cresciam nossos receios, nossas expectativas, nossas ansiedades. Pois daí a pouco, ora pois, dois virariam três... e depois quatro, e cinco... talvez até seis!

Que as noites não seriam mais as mesmas; o dia, se tornaria muito mais agitado... a cuidar dos arranhões, de alergia ou resfriado. O orçamento, bem mais apertado... será que cabe no bolso? Almoço, a partir de agora, só em casa! E que comece a operação desapego... era uma vez o sossego!

Que na gravidez, não tivemos enjôo, mas ninguém teve mais calafrios... afinal, eram tantos desafios pela frente!

Que não tivemos câimbra no meio da madrugada; mas como é que se dorme, sabendo que agora vai ter mais gente no pedaço, que chega chegando, fazendo barulho, dominando o espaço?

Esse bichinho, que chora porque não sabe falar, e quer sua atenção, custe o que custar. Um “serumaninho”, que que leva o nosso nome, que corre e some, que sempre sente fome... e como come!

Mas é assim? Eu não sabia! Que ser pai não é padecer no paraíso, é padecer na padaria!

E bem disse Quintana a respeito: se você, antes de ser papai, gostava de se deliciar com uma coxa de frango, hoje em dia sequer acha graça: a primeira é deles... a segunda também... pra gente, só resta a carcaça!

É tudo por eles, é tudo pra eles!

Essas criaturinhas, amadas mas nem sempre amáveis, apavorantemente adoráveis, que hão de depender de nós por um bom tempo pra tudo, ou quase tudo na vida, sempre nos bombardeando com difíceis e infindáveis “porquês”...

“Mas pai, por que os homens dizem que amam, mas fazem guerra?”

“Pai, por que o céu é azul, e é redonda a terra?”

“Pai, por que é que aqui tá de dia, e no Japão tá de noite?”

De onde eu vim, pra onde vou... papai, quem sou? Diz pra mim!

E assim vamos vivendo, usando e abusando do arsenal de respostas (astutas e fajutas) a perguntas que nunca antes imaginamos... e mal reparamos... que eles aprenderam a amarrar o nó do cadarço, até fazendo laço... e já vão pra aula sozinhos, sem dependerem de ninguém... e, também por si sós, resolveram mirar o que há além da esquina...

E a menina se torna mulher...

E o guri se faz homem...

Vieram, viram, venceram... cresceram! E um dia se foram... só a gente é que não percebeu...

Que o filho, que ontem em meus braços, hoje é pai dos meus netos diletos, mas não é apenas mais meu..

 

PostScriptum 1: uma feliz reflexão

 

Nas Escrituras Sagradas, o Salmo 127 declara: “herança do Senhor são os filhos; o fruto do ventre é o seu galardão (…) como flechas nas mãos do guerreiro, assim são os filhos (…) feliz o homem que enche deles a sua aljava”.

Lições singelas, mas profundas!

É oportuno sempre lembrar: os filhos não são nossos, nunca foram nem serão... a Bíblia os chama de herança do Senhor! Herança é algo mui valioso, transmitido por alguém a outra pessoa... herança é o que se entrega de mais precioso, e justamente em favor de quem é mais importante para outrem! Logo, ser pai é ser agraciado com uma herança singular, proveniente do próprio Deus! Portanto, cuide bem da herança que Deus lhe confiou!

Ademais, além de serem herança, os filhos também são comparados a flechas. Flechas que atiraremos com nossos arcos, rumo à vida! Visando sempre a precisão, mirando sempre o alvo, buscando sempre acertar!

É claro que às vezes iremos falhar... mas não deixemos de tentar! De sermos amigos, mas também espelhos e modelos, em um mundo tão carente de valores e referências...

E um dia, iremos faltar... mas as flechas continuarão voando, pois foram muito bem arremessadas pelas mãos fortes do arqueiro!Flechas nas mãos de um guerreiro! Assim são os filhos... a herança que o Pai te entregou, em um lindo gesto de amor!

Avante, papai, guerreiro do Senhor!

 

PostScriptum 2: uma atroz lamentação

 

 

Escrevo todas as palavras acima com emoção, mas também com uma grande medida de pesar, em uma semana emblemática e diretamente ligada ao assunto do texto, eis que se debate na mais alta Corte de Justiça da Nação a questão da valoração jurídica do aborto.

Ora, acompanhar a defesa do “direito da mulher pela vida”, em eco ao boçal mantra “meu corpo, minhas regras”, e em detrimento da própria vida (vida frágil e indefesa, que está sendo gerada em seu próprio ventre) – inclusive por parte de lobos pseudo-religiosos em pele de ovelhas – dói no fígado e no âmago das minhas convicções e expectativas nessa terra.

E pensar que o primeiro ser a testificar publicamente a majestade e autoridade do Rei Jesus nessa terra foi justamente um embrião... seu priminho João Batista, conforme esplendidamente descrito em Lucas 01:39-45 (não deixe de ler esse texto)!

E ainda há quem discuta se existe vida, ante o pulsar contagiante de alguém que já salta de alegria no ventre de sua mãe, ao ouvir a saudação da voz do Seu Salvador...

Aborto, nem morto.

 

Com apreço

Desse pai (simplesmente um pai)

Rodrigo Abreu

 
Rodrigo Andrade Dias Abreu tem 37 anos, sendo natural de Cel Fabriciano / MG.
Casado com Ana Carolina Abreu, tem duas filhas, Débora Abreu e Gabriela Abreu.
Formado em direito pela Universidade Federal de Minas Gerais, ocupa o cargo de analista federal da justiça do trabalho do TRT 3a região há 13 anos.
Presbítero e evangelista da Igreja Presbiteriana do Cariru, professor universitário, dramaturgo e diretor da Cia Atos de Teatro, Rodrigo dedica-se ao estudo das das narrativas bíblicas, enquanto instrumentos de expressão da identidade judaico- cristã, sob a premissa e a convicção de que o evangelho do Senhor Jesus Cristo deve ser proclamado e reverberado na medida da multiforme graça de Deus, sob as mais diversas formas e possibilidades de expressão artística, cultural e intelectual.
“... porque nele vivemos, nos movemos e existimos...“
At 17:28