A RESPONSABILIDADE DO PASTOR NO DESPERTAMENTO MISSIONÁRIO DA IGREJA LOCAL


 

   A importância do trabalho missionário é amplamente confessada pela maioria dos pastores de formação evangélica. Pregar o evangelho a todas as nações é considerado uma das principais atividades da igreja de Cristo sobre a terra. Contudo, a prática ministerial de alguns parece refletir a convicção de Juan Carlos Ortiz de que pastores não geram ovelhas, apenas as alimenta; ovelha é quem gera ovelha. Segundo Ortiz:

. . . o arquiteto não constrói os prédios que projeta; ele faz os cálculos e planos, e outros os constroem . . . os pastores podem treinar novos pastores. As ovelhas geram outras ovelhas; e, por que não poderiam elas mesmas alimentar com leite os seus cordeirinhos? Este é o processo natural e, também o segredo da multiplicação (ORTIZ 1980, p. 104).

De acordo com esta perspectiva, o envolvimento no trabalho missionário é uma responsabilidade que se limita aos membros da igreja local. Todavia, aqueles que pensam que o envolvimento missionário é responsabilidade apenas das ovelhas nunca devem se esquecer de que eles também são ovelhas do Supremo Pastor.

            Uma vez que a igreja local é orientada, discipulada e motivada por sua liderança, especialmente pelo pastor, a falta de comprometimento dos líderes com o despertamento missionário de suas comunidades resulta em sérios prejuízos para a seara do Mestre. Quando os pastores negligenciam a responsabilidade de motivar suas igrejas em prol da obra missionária esta tarefa é relegada às agências missionárias. Embora estas agências se esforcem por realizar um trabalho a contento, o fato é que elas não o conseguem, pois sempre estão muito distantes das igrejas locais e sua contribuição mais valiosa é facilitar o ingresso do missionário no campo. A motivação missionária, a formação, o pastoreio dos obreiros e o sustento dos mesmos estão intimamente conectados à igreja local. O fato é que há uma geração de missionários retornando do campo por ter atingido a idade da aposentadoria e os candidatos a substituí-los são poucos, alguns despreparados e outros sem as devidas condições financeiras, pois “missões” não faz parte dos temas freqüentemente abordados nos púlpitos das igrejas locais.

   Outro problema com a negligência dos pastores em motivar suas igrejas para a obra missionária está relacionado ao que ocorre com a própria vizinhança dessas igrejas. Normalmente aqueles que não são desafiadas ao envolvimento missionário fracassam em alcançar os que moram ao seu redor. A freqüência destas igrejas, no geral, consiste de membros que moram em áreas mais afastadas, que dependem de veículos para sua locomoção ao templo e não daqueles que moram na vizinhança e poderiam vir a pé. Além de resultar em um acúmulo de veículos no estacionamento da igreja, este quadro revela que algumas comunidades não possuem olhos nem para os que estão ao lado! Além do mais, esta atitude alimenta a convicção de que missões só podem ser realizadas por aqueles que cruzam os oceanos e nunca por aqueles que se dispõem a cruzar a rua para falar de Cristo para o próximo. Pior ainda, o descaso da liderança eclesiástica com a prática missionária transmite a mensagem de que esta atividade é secundária, que só deve ser lembrada uma vez por ano e que somente algumas pessoas “anormais” se interessam pela mesma.

   O fato é que o envolvimento de um pastor com a atividade missionária da igreja depende de sua teologia sobre Deus e de sua perspectiva sobre o ser humano. Além do mais, o entendimento destas áreas está sujeito ao conhecimento bíblico que o mesmo possui. Por exemplo, a revelação bíblica sobre Deus é que ele é absolutamente soberano, sábio e comprometido com sua criação. A mensagem missionária teve sua iniciativa no próprio Deus que amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho (Jo 3.16). Desta forma, qualquer pastor que tem sua prática ministerial fundamentada na revelação bíblica de Deus invariavelmente será comprometido com o mundo de Deus, sua obra redentora e sua mensagem salvadora. De certa forma, toda negligência à atividade missionária pode estar vinculada a uma teologia errônea sobre Deus.

   O comprometimento com a atividade missionária da igreja ainda depende da compreensão que a pessoa tem sobre o ser humano. O ensino bíblico neste caso é que o homem é um pecador, destituído da glória de Deus, condenado à perdição eterna se não se arrepender dos seus pecados e crer em Cristo como o único Salvador. Paulo, em seu ministério apostólico, afirmava esforçar-se para anunciar o evangelho a fim de que as pessoas se convertessem das coisas vãs e se voltassem para o Deus vivo (At 14.15). O homem sem Deus é considerado filho da ira e está sem esperança de Deus no mundo (Ef 2.12). Somente a mensagem do evangelho é poderosa para transformar “filhos da ira” em “filhos de Deus”. Logo, qualquer pastor que tiver uma perspectiva correta sobre a humanidade estará comprometido com o anúncio do evangelho e a prática missionária da igreja cristã.

            O que um pastor poderia fazer para se envolver com missões? Primeiramente ele poderia manter uma agenda sistemática de intercessão pela obra missionária. Há várias informações sobre povos não-alcançados, sobre campos missionários e, especialmente, sobre o contexto no qual o próprio Deus o colocou como pastor. Assim, o vínculo criado pela intercessão logo será transmitido em suas conversas, sermões e atitudes em geral. Depois, ele pode manter o compromisso de pregar periodicamente sobre o assunto. A Bíblia está repleta de subsídios a este respeito. Há textos que indicam a importância da prática missionária, outros desafiam a um maior envolvimento e ainda outros descrevem as bênçãos advindas desse comprometimento. Quando a igreja ouve o seu pastor pregando periodicamente sobre um assunto ela se convence de que o mesmo é importante!

   Em terceiro lugar, o pastor ainda pode convidar missionários para compartilhar suas experiências do campo com a igreja local. Há muitos pastores que temem fazer isto com receio de que os missionários abusem de oportunidades como estas para pedir dinheiro. Quando o pastor é escrupuloso com questões financeiras ele sempre teme que o seu rebanho seja explorado nesta área. Todavia, por mais que tal cuidado seja louvável, o mesmo não deve ser um empecilho à exposição do rebanho às experiências maravilhosas do cuidado e graça de Deus com os seus servos missionários. Neste sentido, há ainda a possibilidade de motivar algumas famílias da igreja a convidar missionários para almoços e jantares. Alguns pais ficariam admirados em observar o quanto seus filhos podem aprender com estes encontros.

   Finalmente, tanto o pastor quanto o restante da liderança de uma igreja local poderiam se oferecer para experiências pessoais em campos missionários. Hoje em dia há várias oportunidades de viagens missionárias de curta-temporada, de auxílios prestados a igrejas no interior, de viagens evangelísticas em determinadas regiões do país. O propósito destas experiências é expor seus participantes a uma realidade que eles só conhecem através de relatos verbais ou escritos. Embora o tempo seja curto em algumas dessas viagens, nunca se deve desprezar o dia de pequenos começos. Vários pais poderiam se alegrar no Senhor com os resultados espirituais de terem doado suas férias para missões!

   Enfim, motivar a igreja local para o envolvimento missionário é parte essencial da tarefa dos pastores e líderes, pois eles também são ovelhas do Bom Pastor. A responsabilidade de pregar o evangelho pertence a todos os servos de Jesus, pois somente assim é possível interpretar que o consolo e companhia que ele prometeu até a consumação dos séculos diz respeito a cada um desses servos (Mt 28.18-20). Aqueles que desejam o consolo devem abraçar a responsabilidade!

 

Valdeci Santos

Secretário Nacional de Apoio Pastoral